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São João del-Rei, 06 de Setembro de 2010

30% dos casamentos brasileiros são entre pessoas de cor diferente
Data: 16/02/2004
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Apesar do passado que proibia casamentos entre "desiguais", São João del-Rei parece hoje de portas abertas para amores de cores diversas



Setenta por cento das uniões brasileiras em 2000 eram entre pessoas da mesma cor, diz o censo de 2000 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. O que dizem da sua experiência os cerca de 30% de casais e namorados de pele clara e escura em São João del-Rei?

 

“As pessoas olham de forma estranha para mim e para meu namorado, mas eu procuro não dar confiança. Ele é filho de criação de uma família branca, então ele sabe lidar com esses problemas. Estamos namorando há oito meses”, diz Lucimeire Aparecida de Oliveira, 31, professora da rede estadual de ensino em São Tiago, mas residente de quinta-feira a domingo em São João del-Rei para namorar com um artista plástico negro, três anos mais novo. O metalúrgico aposentado Daniel Auin, 49, casado há 25 anos com Trindade Maria de Souza, 47, três filhos, diz que quando começou a namorar pensou que “a diferença de cor poderia trazer alguns obstáculos sociais, mas pensar nisso não era fundamental, eu a amava. Sempre tem uma coisinha que amola a mim e a ela – que é negra –, mas grandes problemas com relação a preconceito nunca enfrentamos”.

 

Antônia Rodrigues da Silva, 37, atendente da Ótica Colonial, no bairro Matosinhos, casada há 12 anos com Altair Luiz da Silva, 42, revela que “no começo há sempre constrangimento, certas desavenças. A família da minha mãe é de fazendeiros, pessoas mais antigas, tradicionalmente racistas, então um negro não podia chegar perto da filha. Quando anunciei o namoro tive problemas dentro de casa, mas pedi a Deus que fizesse com que minha mãe aceitasse meu casamento. Com o tempo ela aceitou e ficou muito satisfeita com o casamento de uma irmã minha com um outro negro”.

 

Antônia comenta que ficou “horrorizada com a cidade preconceituosa que é São João. Já chegaram ao ponto de me perguntar: você se casou com ele por quê? Ele é rico? A questão é que me colocavam como uma miss e ele como um sapo, mas enfrentei tudo isso e não o troco por um alemão de olhos verdes, nem se for dono da Ferrari”.

 

Daniel conheceu sua esposa na época em que militava politicamente no bairro São Dimas, isso há 25 anos. “Ela trabalhava com um grupo de jovens na Igreja de São Dimas e me convidou para participar do grupo. Fiquei interessado por ela, depois começamos a namorar e nunca mais nos deixamos. Hoje ela continua católica e eu não freqüento religião alguma”. Antônia, que pertence à igreja Portas Abertas, diz que o culto religioso não interferiu na escolha do marido. Ele era espírita, mas rezávamos juntos. Depois de oito anos de casado, ele resolveu converter-se à minha religião, por conta própria”.

 

A balconista da loja Loyd´s, Ângela Mara Bonetti Hallak, 24, namora há cinco anos com Jean Carlos da Silva, 38. “Nunca sofri com preconceito, minha mãe brincava comigo: como você gosta de negros, faça o favor de me dar um neto escurinho”. O montador de estrutura metálica Edson Antonio da Silva, 38, conheceu Marília Ribeiro Silva, 36, há 23 anos. Casado há 13 e com um casal de filhos, conta que “a família dela, que é de brancos, me recebeu muito bem, e a minha família também a recebeu de braços abertos”. A são-tiaguense Lucimeire lembra que “na minha família todo mundo aceitou a diferença entre mim e meu namorado, sempre respeitaram”.

 

De acordo com Silvia Maria Jardim Brügger, historiadora e professora da UFSJ, o baixo índice de casamentos entre pessoas de cores diferentes tem raízes históricas. “No século 19, quando ocorreu o apogeu escravista em Minas Gerais, não havia casamentos entre desiguais. O que ocorria eram uniões sem cunho afetivo, objetivava-se trocas ou empréstimos familiares que tinham interesses de status, poder e dinheiro”.

 

Minas Gerais foi “a maior província escravista do século 19. Nesse mesmo período surgiu as Devassas eclesiásticas, que eram denúncias da igreja contra pessoas que mantinham relações com concubinas negras e, por isso, eram julgados e, às vezes condenados. Um importante são-joanense que viveu nessa época e foi acusado de viver com uma escrava foi João Lopes Siqueira. Ele foi obrigado a largar a negra e se casar com uma branca. Em seu testamento, ele deixou claro que havia tido um relacionamento com outra negra e insinua que teria tido uma filha, mas ele insinua para não prejudicar os filhos oficiais na partilha da herança”, diz Silvia.


por: Douglas Caputo

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