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Mais paletós e gravatas caminham pelas ruas são-joanenses 23/04/ 2004 Evangélicos se trajam melhor para Deus, advogados perpetuam tradição e jovens redescobrem o vestuário em festas sociais; cidade mantém alfaiate
É crescente nas ruas são-joanenses homens trajando terno. A que se deve essa maior presença de paletós e gravatas numa cidade desprovida de executivos da área financeira e administrativa?
Tradicionalmente católica, São João del-Rei viu surgir nos últimos 15 anos perto de 35 igrejas evangélicas com seis mil fiéis, dos quais 1500 homens que em sua maioria vão de terno aos cultos. No mesmo período, o número de advogados, profissão que conserva o hábito do terno, saltou na cidade de 100 para 172. Os jovens também estão revivendo o costume de trajar terno em festas sociais – principalmente em formaturas, bailes de debutantes e em réveillon –, dizem lojistas. Fora o terno completo, motoristas, gerentes bancários e representantes comerciais estão usando camisa social e gravata. Resultado dessa procura são as oito lojas que vendem terno, algumas recém criadas e outras que passaram a oferecer o vestuário. Além delas, há um alfaiate remanescente.
Enquanto os evangélicos crescem e, com eles, o uso de terno, nas igrejas católicas “só senhores mais conservadores os utilizam”, diz Marcos Aurélio de Souza, funcionário da Igreja do Carmo. A exceção, segundo Marcos, “são as ocasiões em que a irmandade tem que participar. Quando se usa a opa [espécie de capa sem manga], o terno é obrigatório”. O terno predomina entre os evangélicos de todas as idades: “Usamos nossa melhor veste para Deus e é uma forma de estarmos mais elegantes”, relata José Carlos da Silva, 40, da Assembléia de Deus. O pastor Benigno da Cruz Bianchini, da mesma igreja, diz que é como se fosse seu “uniforme” e que, pela sua posição, deve estar bem vestido.
O advogado Nilo Brasiel Valle, 79, lembra que há 60 anos os homens trajavam terno diariamente. “A primeira vez que usei foi aos 16 anos, para saudar o presidente Getúlio Vargas na escola, em Pará de Minas. Apenas os que exerciam profissões liberais – médicos, dentistas e farmacêuticos – não usavam traje completo, porque tinham suas vestes específicas, mas usavam aos domingos e nas festas. Esse uso era acentuado pela mídia na época de glamour e delicadeza dos anos dourados”.
Segundo Nilo, após a Segunda Guerra Mundial os homens perderam esse hábito, a seu ver pelo baixo poder aquisitivo que se instalou nos países arrasados pela guerra, sendo conservado pelos advogados no exercício da profissão, quando não estão de beca. O atual presidente da subseção são-joanense da OAB, Álvaro Machado Filho, confirma que nas audiências os advogados são obrigados a usar terno ou beca, e nos escritórios particulares é recomendado. “É uma questão de respeito às autoridades e à justiça”.
Nilo lembra que antigamente os ternos eram confeccionados em alfaiatarias. “Era caríssimo fazer um terno com alfaiate, era só pra rico. Passei uma boa parte da minha juventude no Rio de Janeiro e lá, quem não tinha dinheiro, andava à moda ‘Ducal’ – calça e paletó de cores diferentes”. São João del-Rei conserva a tradição de se fazer ternos com alfaiate. José Geraldo Campos, ‘Seu Juca’, 72, há 45 no ofício, transmitiu seu saber ao filho Marcelo Antônio Campos, 30, a quem hoje ajuda. Eles trabalham num cômodo ao lado da Igreja Matriz, à rua Padre Lourival de Salvo Rios, e dizem que são os únicos alfaiates de porta aberta da cidade.
“A primeira loja que tive foi onde é hoje a Del Rey Bagagens, na avenida Presidente Tancredo Neves. Há 30 anos vendíamos mais, não sei o número exato. As crianças usavam terno, por exemplo, para fazer primeira comunhão. Hoje o que fazemos mais são calças, mas costumam sair dois ou três ternos por mês, para advogados, maçons, políticos e fiéis de irmandades. Eles trazem os tecidos. Esse número aumenta em festas de final de ano e Semana Santa. Pessoas de outras cidades também vêm nos procurar, ficando uns três dias para experimentar”, conta Seu Juca.
Uma pessoa vista diariamente em São João de paletó e gravata, só que pela TV, é o apresentador do Jornal Regional, Marcos Araújo (TV Campos de Minas, canal 11, 19h e 21h30). Ele diz que a idéia partiu dele mesmo. “Embora seja uma cidade pequena, São João merecia um apresentador aos moldes dos grandes jornais. Na verdade é um padrão do curso de jornalismo. O engraçado é que as pessoas me chamam na rua de William Bonner”.
Oito lojas na cidade vendem terno. A gerente Maria Elisa Aparecida Barreto, da ‘Art, man’, inaugurada há um ano e meio, diz que “60% de nossas vendas de terno são para festas de formatura e casamento e 40% para trabalho. Os jovens procuram muito”. A gerente de vendas Adriana Cristina da Silva, da ‘M Rose’ – existente há 18 anos –, confirma esse uso progressivo. “A venda para jovens aumentou demais, mas vendemos para todas as idades”. Cinco jovens de 18 a 25 anos, entrevistados na rua, disseram que usam terno em diferentes ocasiões: um em reuniões do Rotary Club e outro nas de maçons jovens, além de festas sociais; um terceiro só a festas e dois mórmons que visitam lares de camisa social e gravata, além de terno nos cultos.
Cinco lojas especializadas para noivas na cidade alugam ternos, fora casamentos, também para solenidades da Semana Santa, final de ano, formatura e festas em geral. “Os jovens procuram mais, porque geralmente não têm um próprio”, conta o proprietário do Maison Luiz Antônio, Luiz Antônio Fonseca. “O número de ternos alugados aumentou bastante, com preços de R$ 50 os mais antigos a R$ 80 os mais novos”. por: Aline Arvelos |