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Que a temperatura despenque! 23/06/ 2004 Comerciantes de vinho da "São João dos queijos", mas de poucos enófilos, anseiam pelo "inverno mais rigoroso dos últimos anos"
O poeta Fernando Pessoa (1888-1935) escreveu: “boa é a vida, mas melhor é o vinho”. Presente em maior ou menor diversidade nos supermercados e poucas lojas são-joanenses com espaço para o produto, a bebida desperta pouco interesse do são-joanense ao longo do ano. A não ser no inverno, quando as vendas crescem 60% a 70%, afirmam comerciantes.
“Quanto menor a temperatura, maior a procura pelo vinho”, diz Ítalo Augusto Cassano, proprietário da cantina italiana que leva o seu nome. Assim como seus concorrentes na venda da bebida, Ítalo torce involuntariamente para que o registro de temperatura de 2 graus abaixo da média histórica registrada para os meses de maio e junho, noticiado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, se prolongue para os meses de julho e agosto. No supermercado Fredezan, a procura já é “50% superior ao mesmo período do ano passado”, diz o encarregado do setor de bebidas Pierre Thadeu Reis.
O preço é fator crucial na escolha do produto. “A marca Cantina da Serra [vinho tinto suave a não mais que R$ 3 a garrafa] nunca pára nas prateleiras do supermercado”, diz Pierre. Ao contrário do Fredezan – onde o vinho mais barato custa R$ 3 e o mais caro, o lusitano Vinho do Porto, R$ 43 –, o supermercado Kitzan, “voltado para o público de classe média-baixa”, não vende garrafas com preço superior a R$ 17 [caso do chileno Santa Helena], diz o gerente Alisson Rodrigues Machado.
Na Cantina do Ítalo, os preços variam entre R$ 15 e R$ 45, e a média de consumo é de R$ 25 per capita, segundo o proprietário. Há o caso da Toqaia, loja da avenida Presidente Tancredo Neves que, além de bijuterias, perfumes e roupas femininas, vende uísques nacionais e importados e o vinho gaúcho Casa Valduga (preços entre R$ 15 e R$ 21, dependendo da safra e do tipo de uva), considerado por especialistas um dos melhores do Brasil. “Vendo só essa marca por apreciá-la e para dar preferência à produção nacional, mas a margem de lucro é muito reduzida”, afirma a proprietária Gláucia Lovatto Becho, que revende para restaurantes e bares de São João e Tiradentes.
Na Brasão Queijos e Vinhos, em Matosinhos, as garrafas mais compradas estão na faixa de R$ 10 a R$ 20. O comerciante Fernando Simões Coelho, dono da Adega do Segredo, diz que as vendas acima de R$ 20 caíram nos últimos anos. “Em geral, o que tem crescido é o interesse pelo assunto, mas não o consumo, inibido pela crise econômica”, chama a atenção Fernando.
Perfil
A maior parte dos consumidores de vinhos são-joanenses é de homens com renda mensal de classe média e faixa etária acima de 30 anos. Mas a participação de jovens é cada vez maior, afirmam os comerciantes. “A presença de casais jovens tem aumentado, assim como a parcela de mulheres que tomam vinho”, diz Ítalo. Para Flávio de Souza Ribeiro, proprietário da Brasão Queijos e Vinhos, jovens entre 18 e 25 anos procuram as marcas mais baratas “só para se embebedar, sem preocupação com o sabor”.
Segundo a promotora de vendas da marca gaúcha Mioranza em São João del-Rei, Viviane Raimunda Neves, que faz um rodízio quinzenal nos supermercados locais ofertando aos clientes tragos de vinhos tintos e brancos secos e suaves,o tipo de vinho mais comprado no país e nos Campos das Vertentes é o suave (adocicado), o tinto seguido pelo branco. No Brasil, 80% do vinho consumido é tinto, tendência visível em São João del-Rei, apontam comerciantes. Segundo Viviane, “98% dos vinhos acima de R$ 20 são secos [mais encorpados e com maior teor alcoólico] e normalmente comprados por degustadores mais experientes. A classe média-baixa compra mais o tinto suave vendido em garrafões de quatro litros”.
As marcas brasileiras são mais procuradas por apresentarem preços mais baixos, mas o interesse pelos importados – especialmente os chilenos – tem crescido. “Os vinhos produzidos em países do Mercosul, como o Chile e a Argentina, apresentam a melhor relação custo-benefício: são de ótima qualidade e custam menos que os europeus”, afirma Fernando Coelho. Dividindo o interesse com os vinhos italianos, o chileno Gato Negro (R$ 17 em média) é um dos campeões de apreciação entre os vinhos importados da Cantina do Ítalo. O vinho champanhe, denominado espumante fora da França, é vendido basicamente no réveillon, diz Ítalo, mas na loja Toqaia “há demanda o ano todo, embora em menor grau”, assegura Gláucia.
O proprietário da Nova Opção Conveniência (posto Maxxi, rua Maria Tereza), Carlos Iraci de Oliveira, confirma a preferência pelos importados chilenos. “Há o caso de um dono de restaurante de São João que me comprou, por telefone, 12 garrafas de Santa Helena a R$ 17 cada, enquanto negociava ao mesmo tempo com um comprador por R$ 28 a garrafa. Faturou R$ 132”.
A loja, com “20 a 30 compradores de vinho freqüentes”, funciona 24 horas de quinta-feira a domingo, e vende 87 marcas de vinho diferentes, de seis nacionalidades. Carlos diz que a maioria de seus clientes procura a bebida pela marca, e não pelo preço – “nacionais mais caros saem menos que um Gato Negro, por exemplo” –, e que são comuns os telefonemas de pessoas procurando vinho de madrugada. “Turistas hospedados em Tiradentes costumam comprar garrafas a R$ 18 e mandam o mototáxi buscar. Ao todo, deve gastar mais de R$ 40”.
Gosto pelo vinho
Na cidade de poucos degustadores e sem ponto de encontro entre admiradores da bebida, as lojas têm entre 15 e 20 fregueses cada de clientela fiel, com compra semanal de R$ 20 em média. Em um caso específico, no outono desse ano, um advogado comprou R$ 2 mil em vinhos para “formar uma adega particular”, diz o vendedor Fernando.
O fato da microrregião de São João del-Rei fazer parte de uma região produtora de leite e queijo (daí a fama de “São João dos queijos”) não incentiva o gosto por vinhos de qualidade. “Apesar da região fabricar queijos provolone e mussarela, geralmente associados ao vinho, o grosso da produção é de queijo Minas, pouco consumido com bebidas fermentadas”, diz Ítalo.
A menos de um mês de sua 17ª edição, com início 17 de julho, o Inverno Cultural da UFSJ, que ainda não promoveu curso de iniciação ao gosto pelo vinho, não descarta a idéia para os próximos invernos. “O assunto já foi discutido pelos organizadores, num sentido mais amplo, envolvendo também gastronomia. Mas até hoje não recebemos propostas nem da população nem de pessoas interessadas em oferecer oficinas”, diz o diretor de Assuntos Comunitários da UFSJ, Mauro Nuno dos Reis. por: Pedro Belchior |