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São João del-Rei, 06 de Setembro de 2010

João da Conceição resiste como o último dos funileiros
Data: 09/10/2003
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João da Conceição resiste como o último dos funileiros

Farol, outubro de 1999

 

 

Uma profissão em sumiço aquartelada em uma construção bicentenária faz soar reminiscências em antigos moradores e “ohs!” de surpresa e admiração em turistas.

 

A cinqüentenária oficina de consertos São Jorge, vizinha ao Solar da Baronesa, e seu octogenário mestre João da Conceição Vallim atraem olhares, perguntas e máquinas fotográficas. Latas, panelas, calhas, bules, ferragens, maquinário antigo, paredes de adobe e histórias do proprietário transformam o atulhado galpão em verdadeiro túnel do tempo.

 

Histórias temperadas, conta Vallim. Pelo odor dos escravos que dormiam e eram castigados no local, pelo sal que brota das paredes impregnadas quando o casario foi depósito daquele condimento, e pelo cheiro de leite das enormes latas que freqüentemente caíam das carroças dos leiteiros e rolavam pelo chão pé-de-moleque.

 

Mais do que revelar os sabores de épocas passadas, essas histórias têm suíngue. Vêm embaladas pelo ritmo das marteladas de desamasso dos tachos, que faziam a vizinha reclamar quando soavam cedo demais; pelo som estridente do serrote anunciando o preparo de caixões na funerária defronte; pelo timbre do trombone soprado por Vallim nas orquestras, festas religiosas e manifestações políticas.

 

Quando tocava em comícios, João da Conceição exigia o pagamento dos músicos: “se os foguetes não eram de graça, por que a banda deveria ser?”. Já nas festas da igreja tocava “por puro prazer”. Festeiro, Vallim rodopia da música sacra e clássica à popular, lembrando os bailes dos extintos Qualquer Nome Serve e Custa Mas Vai. “Já enlacei muitas mulatas pela cintura”, confidencia, atribuindo à “pinga” seu humor.

 

A esposa, filhos e filhas – que perpetuam na oficina a herança profissional de Vallim – riem. João da Conceição, 83 anos, retoma o trabalho atendendo cliente que traz uma panela de pressão.

 

Das latas às panelas de pressão

 

Antes das panelas de pressão terem se tornado a locomotiva da São Jorge, antes dos recipientes de plástico e calhas pré-fabricadas terem roubado o espaço das latas e calhas de ferro estanhado nos lares, reinavam absolutas as funilarias e caldeirarias.

 

Indispensáveis à vida cotidiana de então, Vallim foi estimulado por sua mãe, aos 12 anos, a ingressar em uma para obter formação profissional. De aprendiz tornou-se mestre. Já artífice que faz utensílios de cobre e de outros metais, trabalhou em fundos de quintal e em várias oficinas até adquirir a sua. Lá se vão 71 anos de profissão, 50 à frente da São Jorge...

 

Tempos em que os leiteiros passavam pelas ruas com carroças portando enormes latas de leite que, volta e meia, caíam rolando pelo chão. Muito amassadas, Vallim as endireitava com marteladas e banhos de estanho. Eram 20 a 30 por semana, que viravam “novas”. Também soldava com estanho as calhas usadas em construções. Panelas, bules, ferragens e muitos outros utensílios passavam por suas mãos, além de encanamentos e instalações sanitárias.

 

O barulho das marteladas não existe mais. O trombone está aposentado por ordens médicas. Mas Vallim continua trabalhando diariamente das 7h às 17h. Preocupado em deixar seu legado, ensinou a profissão a filhos, sobrinhos e a quem se interessasse. “Não como meus antigos mestres, que ocultavam segredos do ofício por medo da concorrência”, diz.

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