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Centro histórico renasce aos poucos com café e pão 17/06/ 2004 Para além das novas casas de lanche e das luminárias coloniais, faltam perspectivas no horizonte turístico. A rua da Cachaça não ‘esquenta-por-dentro’ o núcleo tricentenário
Você entra, senta-se numa mesa em ambiente acolhedor e espera pelo kit Via Sacra – torrada com geléia, patê, biscoito e chá nacional – enquanto observa na parede uma ampliação de foto panorâmica de São João del-Rei no início do século passado, registrada pelo imigrante italiano André Bello. Se preferir, pode pedir a torta salgada Museu de Arta Sacra, ou então o sanduíche Matriz do Pilar. Caso a preferência seja por pães, na avenida paralela amplo recinto com apurada decoração oferece um leque de sabores. Discreta, uma réplica do Chafariz da Legalidade (1833) se deixa mostrar entre salgados.
História sim, mas nem tanto. Conquistar o público em uma área de ampla circulação foi o que motivou as inaugurações da Cafeteria Soberano, dia 12 de junho, e a segunda Casa do Pão, em maio, por empresários são-joanenses. A primeira ocupa o imóvel da antiga Casa Assis – fincada no Quatro Cantos (cruzamento entre as ruas Marechal Deodoro e Arthur Bernardes) e entremeada por sobrados do início do século passado – e a segunda se situa na avenida Presidente Tancredo Neves, a poucos metros da Ponte da Cadeia (1800).
A abertura dos dois estabelecimentos, premeditadamente ou não, se alinha a projeto de revalorização do centro histórico, como a substituição de postes de concreto por luminárias coloniais, prevista para o segundo semestre, e sucede iniciativas como a aquisição do Solar da Baronesa (Largo do Carmo) pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), em 1995, e posterior transformação em Centro Cultural, em 2000.
“Nossa inspiração foram as cafeterias são-joanenses da década de 40, como Rio de Janeiro, Java e Ideal, importantes pontos de discussões políticas e encontro de amigos”, diz Luciana Baccarini, filha do proprietário do Café Soberano – empresa responsável por todo o processo de industrialização da bebida. “Abrimos a cafeteria com a intenção de divulgar a marca. Nosso público-alvo são os comerciantes e consumidores que passam pelo centro diariamente, mas também pensamos no turista, tanto que escolhemos esse ponto estratégico no centro histórico”. A cafeteria oferece sanduíches, tortas doces e salgadas, chás, musses, suco natural e, mais que café, cafés-drinques. O cardápio faz homenagem a São João del-Rei: as tortas salgadas recebem nomes de museu, sanduíches são denominados por pontos turísticos (igrejas, casarões e monumentos) e kits (uma bebida e uma torta, por exemplo) são batizados por festas (carnaval, via sacra e festa do Divino são alguns).
A Casa do Pão – que recebe o nome da padaria criada há cinco anos no Calçadão da Kibon – gerou filial na Presidente Tancredo Neves por razões de mercado, segundo Renata Santos Resgalla, sócia do marido Guilherme Lara Resende. “Escolhemos o lado de cá do córrego do Lenheiro porque a área tem poucas padarias, e pela Tancredo Neves passa um público diário grande”, diz Renata. “O turista é bem vindo, mas não foi nele que pensamos ao construir a filial”. O ambiente, que lembra as confeitarias sofisticadas do centro antigo do Rio de Janeiro, é acompanhado por uma variedade de pães, bolos, salgados e doces, cujas unidades ou porções variam entre R$ 0,70 e R$ 1.
Centro histórico decola?
Fora as casas de lanche, não há previsão de que a iniciativa privada explore o potencial turístico que emana das ruas estreitas e dos casarões históricos são-joanenses.
Já se pensou em dar novos ares à moribunda rua Marechal Bittencourt (ex-rua da Cachaça), famosa por abrigar casas de prostituição até a década de 80. “O André Dangelo (arquiteto e professor da Universidade Federal de Minas Gerais) pensou em transformar a rua em via de pedestres, com a criação de livrarias, bares, restaurantes e cafés. Seria chamada de Zona Chique”, diz o representante são-joanense do projeto Estrada Real, Áttila Godoy, que possui “dois imóveis e meio” na esquina com o Largo do Carmo. “Comprei há vinte anos sem pensar em lucros futuros. Pensei há alguns anos em abrir um restaurante de qualidade, o que não deu certo porque a idéia foi isolada. Não queria que o estabelecimento dividisse espaço com aquele boteco ‘sem vergonha’ da rua”.
Sem pretensões lucrativas, o primeiro diretor executivo da então Funrei (hoje UFSJ), João Bosco de Castro Teixeira, pretende criar na rua da Cachaça, através de uma entidade sem fins lucrativos que ajudou a fundar, o “Centro de Referência Musicológica José Maria Neves”. O projeto arquitetônico de reforma e adequação do sobrado, doado à entidade pela maestrina Maria Stella Neves Valle (irmã de José Maria e de dom Lucas Moreira Neves), já foi aprovado pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e aguarda financiamento do Ministério da Cultura, através da Lei de Incentivo à Cultura, diz João Bosco.
Plano Diretor de Turismo: estacionado
Elaborado em 2002 com financiamento da Embratur (Instituto Brasileiro de Turismo) sob a coordenação da UFSJ, o Plano Diretor de Turismo envolveu professores da instituição, do Iptan e de outras universidades, técnicos da UFSJ e do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Dentre outras medidas para dinamizar o turismo na cidade, o plano propunha 15 ações para valorização do centro histórico, todas a partir de abril de 2003.
Oito dessas ações estariam sob responsabilidade da Agência de Desenvolvimento do Turismo (Adtur), que seria, de acordo com o plano, “um facilitador em um mercado livre, importante para encurtar caminhos” nos entraves burocráticos, além de criar junto à Prefeitura um escritório técnico para “aprovar e gerenciar todos os projetos e obras civis relativos ao centro histórico e entorno”.
Para a rua Marechal Bittencourt (antiga Rua da Cachaça), por exemplo, o plano, atribuído à Adtur, era abrir um complexo de bares no centro do quarteirão com o Largo do Carmo, com espaços para shows nos moldes do Projeto Pelourinho, em Salvador, e lojas especializadas em artesanato e souvenir da região do Campo das Vertentes. Para todo o centro histórico, a agência ficaria responsável pela “reavaliação da circulação de veículos” em vias estreitas, consideradas estratégicas para o desenvolvimento turístico do núcleo.
A Adtur e o Plano Diretor, entretanto, não saíram do papel. Segundo o diretor de Assuntos Comunitários da UFSJ e um dos elaboradores do projeto, Mauro Nuno dos Reis, a pedra no caminho é política. “Quando as coisas não dependem do poder municipal, a coisa deslancha. Se o Plano está engavetado, o motivo é político. O plano precisa do poder público. É necessário modificar o trânsito de veículos no centro histórico, mas quem tem poder para fazer isso? Se dependesse da universidade, já teríamos cuidado”, diz. “Convidávamos a Prefeitura para as reuniões de discussão do projeto, mas o prefeito [Nivaldo Andrade] só mandava funcionário de quinto escalão, que não entendia nada de turismo”.
Mauro Nuno nega a falta de vontade da UFSJ em cobrar do poder público a dinamização do Plano Diretor, mas admite que “a população precisa dar uma cutucada na universidade. Se a comunidade não reage, a UFSJ atende a outras demandas”.
por: Pedro Belchior
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