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São João del-Rei, 06 de Setembro de 2010

Quem fala uai come quieto e não perde o trem
Data: 09/12/2007
Visualizações: 468
 

Quem fala uai come quieto e não perde o trem
22/01/ 2004
No encontro do antigo com o novo, são-joanenses falam "uai" e "why"; escritor e professora comentam o convívio dos falares de diferentes épocas



Cidade de tradições quase tricentenárias, São João del-Rei vem reforçando preservar, nos últimos anos, mais do que o patrimônio arquitetônico, mas também os chamados bens imateriais, intangíveis: a Festa do Divino no bairro de Matosinhos, a recuperação da tradicional culinária de doces através do Projeto Delícias de Antigamente, a Folia de Reis no Largo São Francisco e até o registro do toque dos sinos, uma marca da cidade. Duas professoras da UFSJ, Leônia Chaves Resende e Suely Campos Franco, pesquisam as festas religiosas remanescentes do século 18 no caminho velho da Estrada Real – que atravessa 33 cidades da diocese são-joanense. Mas e o linguajar, o modo de falar, o uso de expressões regionais, podem ser preservados?

 

Muitos são-joanenses ao se encontrarem perguntam "cê tá bão?", e falam "uai" ao "bater um dedinho de prosa". Essa mineiridade, presente desde os tempos dos muros de pedra, do trotar de cavalos, dos galos cantando e da chaleira apitando, representa muito mais que o antigo cotidiano do interior mineiro, é uma linguagem única. A professora de lingüística da UFSJ, Dylia Lisardo Dias, diz que “há regiões com expressões próprias do lugar, que funcionam como fator de identidade social e forma de preservação cultural".

 

O escritor são-joanense Oyama de Alencar Ramalho, autor de três livros, conta que tem “na gaveta” um romance inédito com “diálogos que utilizam o linguajar cotidiano de outra época". Ele, que é um dos pioneiros no projeto da Estrada Real , diz que “a zona rural já perdeu quase tudo o que tinha de entonação e uso de expressões. Todo mundo fala igual à rede Globo. Os padrões regionais sucumbiram. A tendência é a unificação da linguagem via TV”. Considera que não há outro caminho: “a língua tende a mudar com os tempos”. Dylia reforça ao propor a linguagem como “algo não necessariamente fechado, mas que sofre influência de vários meios, principalmente os de comunicação. Há novelas que cometem erros caracterizando o linguajar nordestino como o linguajar baiano".

 

Apesar da influência do rádio e da televisão sobre a língua, muitos falares locais ainda estão preservados. A palavra “trem” assume os mais diversos significados – “que trem é esse?” ou “que trem de doido”. Dylia comenta que “trem é muito comum no linguajar dos mineiros pois sua presença era intensa no estado. Ele trazia gente, trazia carga, trazia coisa boa, trazia coisa ruim, a vida da cidade fazia-se em torno de uma estação ferroviária. Por isso é que a palavra assume muitas conotações”.

 

Outra expressão típica e que dá nome a uma banda são-joanense é a palavra "uai". A vocalista da banda, Isis Lobato Teixeira, conta que o nome inicial do grupo era Uai Brasil, "mas era muito amplo. Na metade de 2000, resolvemos mudar para Uai Sô, para ficar mais mineiro, mais restrito. As pessoas de outras cidades e estados gostam do nome, umas acham engraçado, outras pensam que é forró, por ser um nome mais caipira, mas no geral gostam, é um nome que fica bem memorizado”.

 

Das tradições barrocas às recentes LAN houses, em São João del-Rei o trem prossegue apitando de sexta a domingo ao lado de uma juventude que lança mão de termos próprios da era da informática.

 

por: Douglas Caputo


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