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São João del-Rei, 06 de Setembro de 2010

Na “Foguetópolis” das Vertentes, nenhum foguetório causou prejuízo
Data: 05/05/2004
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Na “Foguetópolis” das Vertentes, nenhum foguetório causou prejuízo
05/05/ 2004
Cidade de cotidiano lançar de foguetes, São João del-Rei não guarda lembranças de acidentes pirotécnicos graves



Um rojão de alta potência lançado durante a queima de fogos de artifício no encerramento das festividades pelo 40º Jubileu de São José Operário, dia 1º de maio à noite, em Barbacena, deixou 49 pessoas feridas, das quais 15 com queimaduras, três em estado grave. Em vez de explodir no ar, caiu na área das barracas, atingindo quem estava no local. Na tricentenária São João del-Rei, cidade que, segundo o pároco da Matriz de Nossa Senhora do Pilar, padre Sebastião Raimundo de Paiva, o ‘monsenhor Paiva’, “deveria se chamar Foguetópolis", o grande uso de foguetes já causou acidentes graves?

 

As centenas de pessoas que assistiam à queima de fogos na saudação a 2004 junto às amuradas do Córrego do Lenheiro – entre a ponte da Cadeia e a do Teatro Municipal – iniciaram o ano com um susto. Um foguete, em vez de subir, enviesou em direção ao ponto de táxi, estourando na avenida Tancredo Neves e soltando espessa fumaça. O imprevisto e conseqüente fuga desordenada dos que estavam próximos não causaram problema. O show pirotécnico de inauguração do Restaurante Popular de Matosinhos, dia 6 de março, na praça do bairro, prometido pelo prefeito Nivaldo de Andrade para durar 23 minutos, cessou antes de chegar aos 15. Segundo o assessor de comunicação da Prefeitura, Cláudio Braga, “os fogos, instalados muito próximo às pessoas, no adro do Santuário Senhor Bom Jesus de Matosinhos, assustaram-nas com as faíscas caindo, mas ninguém se machucou. Por isso mandei parar o foguetório antes do momento previsto”.

 

Monsenhor Paiva, há cinqüenta anos em São João, apesar de “nunca” ter ouvido falar de acidentes pirotécnicos na cidade, diz detestar fogos de artifício. “Não gosto, mas aqui na paróquia eles sempre soltam em épocas festivas. As crianças ficam espantadas, agarrando no colo da mãe. Faz muito barulho e o hospital fica próximo. O pessoal da paróquia já sabe que sou contra e nem toca nesse assunto comigo. Uma vez falei que não era para soltar foguetes e o fogueteiro veio me falar que eu estava tirando o pão da família dele. Aí falei: ‘Então você muda de emprego, porque disso eu não gosto”.

 

O historiador e professor aposentado Antônio Gaio Sobrinho, estudioso das tradições e costumes culturais são-joanenses, já teve neto e irmão feridos por fogos de artifício. “Volta e meia cai vareta na cabeça de criança. Nem sempre é coisa séria, mas um machucadinho sempre dá. Quando meu neto tinha uns seis anos foi atingido por uma, em uma festa religiosa no Bonfim. Hoje, já com doze anos, não pode nem ouvir falar em foguete. Ficou traumatizado. Meu irmão, há uns vinte anos, soltou um foguete que explodiu na mão dele, que ficou machucada por muito tempo”.

 

Em eventos esportivos, momento em que os foguetórios são habituais, “não é comum acontecer acidentes”, afirma o presidente da Liga Municipal de Desportos, José Norberto. O ex-participante de duas torcidas organizadas do Cruzeiro – Máfia Azul e Trem Azul –, Jean Willian Cipriani, diz que “quando a queima de fogos é organizada por equipes profissionais não acontece acidentes. Geralmente acontece alguma coisa quando a pessoa compra foguete e ela mesmo solta. Às vezes a pessoa já bebeu demais ou não tem conhecimento. Acidentes não são comuns, mas de vez em quando. Há uns três anos uma pessoa queimou a mão durante uma carreata”.

 

O assessor da Secretaria Municipal de Turismo, Sebastião Machado Gomes, o “Jacó”, há anos à frente da organização de eventos oficiais, cívicos, carnavalescos e outros, diz que já foi atingido na perna por um pavio, “mas não foi nada grave. Acho que estão soltando fogos muito baixo e perto das pessoas”.

 

Responsável por “seis por cento” dos shows pirotécnicos que acontecem em São João, André Luiz da Silva, sócio-proprietário da C & A Pirotécnica, de São Tiago, diz que “a grande maioria dos eventos com fogos de artifício em São João é realizada por fogueteiros clandestinos da cidade. Todos os que fiz até hoje – na maioria, comícios – não deram problemas, mas o incidente que ocorreu em Barbacena está sujeito a acontecer com qualquer um, porque não é a gente que fabrica os fogos. Lamento muito o acontecido”.

 

André explica que para realizar um show de queima de fogos de artifício é necessário autorização do Corpo de Bombeiros, além de conhecimentos e cuidados. “A pessoa deve ser habilitada, ter nota fiscal da mercadoria e dar distância entre os fogos e as pessoas, depósitos de combustível, gás e da rede elétrica. A distância mínima deve ser cem metros, mas depende do tipo de foguete. Tem uns que precisam ter distância de até quatrocentos metros”. André informa que a carteira de habilitação para soltar fogos de artifício é emitida pelo Departamento de Operações Especiais da Delegacia Especializada em Armas, Munições e Explosivos, que fica em Belo Horizonte. “A pessoa tem que fazer um curso de teoria e prática, que dura em média quatro dias. Depois é aplicado um teste para ver se está apta ou não”.

 

Um fogueteiro em São João há vinte anos, que não quis ser identificado por “não ter firma reconhecida”, diz que ao longo desse tempo “nunca aconteceu acidente. Trabalho geralmente em festas de igrejas. Tem que ter muita segurança. Quando dá algum problema, ou é defeito de fabricação ou porque molhou. Já fiz o curso e minha carteira está para chegar. Em São João deve ter uns cinco fogueteiros, mas não sei se eles têm curso e firma registrada”.

por: Juliana Costa

Foto: Luciano de Oliveira / arquivo Núcleo de Assessoria Cultural / Programa CIF de Revitalização do Largo de São Francisco.


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