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São João del-Rei, 06 de Setembro de 2010

"Dar a volta por cima" é desafio de sambistas de ontem e de hoje
Data: 03/02/2005
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"Dar a volta por cima" é desafio de sambistas de ontem e de hoje
03/02/ 2005
Os blocos ‘Unidos da Cambalhota’ e ‘Vamos a La Playa’ desfilam desatentos a que seus nomes revivem sambas antigos intimamente ligados a temas atuais



Os blocos ‘Unidos da Cambalhota’ e ‘Vamos a La Playa’ desfilam sábado e segunda-feira de carnaval desatentos a que seus nomes revivem sambas antigos intimamente ligados a temas atuais. Cambalhota evoca ‘Dar a Volta por Cima’ (Paulo Vanzolini), o desafio de superar situações difíceis – solitariamente ou não na vida pessoal e, por extensão, coletivamente na vida comunitária e nacional. ‘Vamos a La Playa’ em pleno interior mineiro recorda a profecia nordestina “o sertão vai virar mar”, hoje na ordem do dia com o debate sobre a transposição parcial das águas do rio São Francisco na tentativa de que terras desérticas frutifiquem.

 

O fundador e presidente do ‘Unidos da Cambalhota’, Artur Moreira, em entrevista sobre o bloco, gravitou na órbita carnavalesca: quadris girando sobre pernas, corpos girando sobre cabeças. “Há cinco anos, ainda estudantes, depois de bebermos em um carnaval, saímos dando cambalhotas. Isso depois virou costume em nossos encontros e churrascos. Inspirados em blocos de samba, resolvemos criar um do nosso jeito, sob o nosso comando e nós também tocando”. Blocos comumente não têm carro alegórico, mas o Unidos da Cambalhota tem um baita colchão de espuma impermeabilizado, que garante a folia de ponta-cabeça mesmo sob toró.

 

“É diversão garantida para crianças e adultos, ritmada por 37 instrumentos, a maioria nossa, mais os tamborins, cada um levando o seu”, diz Artur, que cantará com mais dois puxadores o samba-enredo auto-homenageante ‘5 Anos de Unidos’. Com concentração às 14h no Largo de São Francisco e destino ao ‘calçadão do Kibon’, as cabriolas, saltos acrobáticos e trambolhões se sucedem ao longo da Rua da Prata, Ponte e Largo do Rosário, ruas Getúlio Vargas e Artur Bernardes, Ponte da Cadeia e fim das pernas para o ar no Bar do Dinho, nascedouro das cambalhotas. O bloco é pioneiro em página eletrônica: http://www.cambalhota.cjb.net/.

 

O córrego já foi mar

 

Ante a relação entre o nome ‘Vamos a La Playa’, o refrão sambístico antigo “o sertão vai virar mar” e o atual debate parlamentar sobre se a transposição parcial das águas do rio São Francisco é pertinente ecologicamente, um dos diretores do bloco, José Francisco Rodrigues, o ‘Chico da Rádio’ ou ‘Chico do Estúdio’, sentencia: “o Córrego do Lenheiro já foi e continua sendo uma espécie de mar. Suas margens, antes de serem gramadas, eram de areia fina, vindas da serra do Lenheiro, e eram chamadas de praias. Nas suas águas tomava-se banho, antes de ficarem poluídas. As amuradas do córrego, depois de construídas, passaram a ser chamadas de cais, e os antigos acessos – degraus – às vias públicas, de porto. Teve até Posto Seis, como Copacabana, defronte aos hotéis junto à Ponte da Cadeia”.

 

Se o ‘Vamos a La Playa’ origina-se na extinta orla de areia do córrego do Lenheiro, deita sua fama já de 17 anos em travessuras nas beiras gramadas infestadas de vermes e parasitos. “A estréia do bloco aconteceu sob chuva e frio, atraindo seis ou sete pessoas. Aí nós, depois chamados de malucos, resolvemos pular da concentração, no Largo do Tamandaré, para a praia. A história rolou e o bloco emplacou no ano seguinte, com a ajuda do sol. O desfile foi marcado por pessoas com maiôs antigos, fantasias de tubarão e bóias-patinho. No terceiro ano acrescentamos um caminhão-tanque esguichando água, e as casas na rua Balbino da Cunha, em vez de confete e serpentina, jogavam água de bisnagas, mangueiras e baldes. Depois veio a rampa de madeira para a margem do Lenheiro, em frente à Escola João dos Santos. O ‘Vamos a La Playa’ é hoje o maior bloco são-joanense, com mais de 5 mil acompanhantes”, espraiando-se pelo centro a partir da concentração na avenida Oito de Dezembro, às 14h de sábado.

 

Chico da Rádio – ou do Estúdio – é o que se pode chamar de espírito aventureiro. Já percorreu a trilha do cangaceiro Lampião e desceu o rio São Francisco, de barco a remo, duas vezes. A segunda viagem é relatada na edição 363 do Jornal da UFSJ, de 19 de junho de 2002. Veja uma passagem: “Quilômetros abaixo de Pirapora , os viajantes constatam a primeira agressão à histórica artéria do Brasil central: rejeitos industriais e esgotos domésticos da região metropolitana de Belo Horizonte, levados pelo Rio das Velhas, chegam ao Velho Chico. Contraste: em 1867, o local do encontro dos dois rios, Barra do Guaiacuí, município de Várzea de Palma, foi chamado pelo explorador inglês Richard Burton de ‘Jardim da Terra’, por sua beleza, pássaros e quantidade de peixes”.

 

Assim como o ‘Velho Chico’ não tem mais santidade – pureza – em suas águas, o velho córrego do Lenheiro também não tem, vê Chico da Rádio. Por isso, parte da tradição do Vamos a La Playa será “quebrada” a partir deste ano: por medida de segurança, relativa à saúde pública e física dos foliões junto aos cais – amuradas do córrego – e a ponte metálica defronte à Escola João dos Santos, o bloco não deverá mais beirar, pelo menos na extensão anterior, as ruas laterais ao córrego. A Playa ficará restrita aos banhos do caminhão-tanque, mangueiras, baldes e bisnagas, parodiando os chuveiros à beira-mar para tirar o sal.

 

Não é mudança, transformação demais para uma tradição de 17 anos? Chico da Rádio orgulha-se: “nossa principal tradição é que, apesar do nome Playa lembrar de imediato banhistas, o bloco nunca afundou no modismo de exibir corpos sarados, malhados em academia, atentar ao pudor”.

 

Campos das Vertentes, a microrregião que São João del-Rei é cidade-pólo, é, geograficamente, extensões cheias de sucessivos pequenos declives, que os literatos chamam de mar de montanhas. Os blocos são-joanenses, insinua Chico da Rádio, são mares de gente ondeando quadris.


por: Edson Paz


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