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Da ditadura à democracia sem conquistas populares, a “Lesma Lerda” 27/01/ 2005 Três blocos são-joanenses criados na "distensão lenta, gradual e segura" do general Geisel (1974-79) dispararam em seguidores mas refrearam na chacrinha com o estabelecido
Três blocos carnavalescos são-joanenses criados nos anos de “distensão lenta, gradual e segura” do general presidente Ernesto Geisel (1974-79) tentam prosseguir fiéis às suas origens de fazer chacrinha com o estabelecido. A ‘Bandalheira’ – segundo o Aurélio, prática de indivíduos sem dignidade nem brio, de patifes – nasceu na “mesa zero” da Cantina do Ítalo. “Lá se discutia de tudo, de política internacional à Banda de Ipanema, mas não se resolvia nada. A única exceção foi essa: resolvemos criar a Bandalheira calcada na de Ipanema, se não me engano, em 77”, ri Hilário Pedro Barroso Parente, o popular ‘Pedro Parente’.
A ‘Lesma Lerda’, fundada em 75 por grupo de jovens locais que alugou uma casa transformando-a numa espécie de pioneira ‘república estudantil’ são-joanense, tem um nome terrivelmente profético. “Surgimos movidos pela intenção de satirizar a conjuntura e a realidade sócio-político-econômica brasileira e são-joanense da época, fazendo charges, frases e protestos com humor a partir de temas polêmicos”. Decorridos 20 anos do final da ditadura [1985], o país prossegue na essência exatamente igual, tudo a mesma coisa, deu na ‘Mesma ...’? A democracia não se efetivou em conquistas sociais e econômicas? O desconhecido José Francisco Rodrigues, melhor, o popular ‘Chico da Rádio’, ‘Chico do Estúdio’, ‘Chico da Montanha’ e outros ‘Chicos’, conforme a atividade e a roda de amigos que estiver à sua volta, sorri entre desconsolado e esperançoso, este último pela certeza de mais um massivo desfile da banda, quarta-feira, 2, com concentração às 20h na avenida Oito de Dezembro.
O Bloco das Domésticas, lançado em 1977 por um grupo de jovens metamorfoseados em empregadas “de família”, transgrediu um dogma – uma norma indiscutível, ‘autoritária’ – local: atravessou em seu primeiro e seguintes desfiles a ‘Zona’, a rua do meretrício local, denominada Marechal Bittencourt, antes ‘Rua da Cachaça’ – citada até em livro do folclorista Luis da Câmara Cascudo. Vizinha à igreja de Nossa Senhora do Carmo, “ninguém entrava, passava ou olhava para a Zona”, diz Roberto Vieira da Silva, um dos fundadores.
Contra o “me dá um gole aí”
Afora essa origem anti-autoritária de três décadas que a democracia brasileira não soube converter em conquistas sociais e econômicas populares, os blocos orgulham-se de ‘resistências’ ou ‘conquistas’ – uma, à primeira vista, ‘anti-povo’? “Devido ao carnaval são-joanense viver plena decadência em meados dos anos 70, invadido por foliões turistas pedintes de cigarros, de banho e de cerveja – do ‘me dá um gole aí’ –, enfim, um bando de gente mal vestida e mal educada, criamos a Bandalheira para sairmos uma semana antes da chegada daquela gente estranha”, não poupa adjetivos Pedro Parente. “Éramos – e somos –, apesar do nome, uma banda-família, onde saíram dona Zininha Neves, irmã do Tancredo, e dona Guegué, matriarca dos Besamat, que emociona pela idade, madrinha eterna da banda”.
Hoje, “mais coroa”, Pedro Parente – que destina a bons ouvidos da cidade e microrregião, de segundas a sextas, das 21h30 às 22h30, na Rádio São João D’el Rey, o ‘Pérolas Musicais’ – comparece à concentração no final da tarde de sábado, 29, no ‘calçadão do Kibon’, mas não acompanha o turbilhão que segue pelas ruas Balbino da Cunha e da Prata e retorna beirando o Córrego do Lenheiro e dobrando na Ministro Gabriel Passos. Sentado na extinta “mesa zero” do bar-restaurante Cantina do Ítalo, vê sua cria e a de amigos voltar, avolumada de “estranhos”. O feitiço virou-se contra o feiticeiro? O aumento foi para o bem ou para o mal? Pedro, agora “espectador”, dá a entender que está de bem com a turba.
Lesma Lerda globalizada
Anti-censura jornalística e cultural nos anos 70, a Lesma Lerda se viu guindada aos meios de comunicação em anos posteriores. “Guardo recortes de grandes jornais com matérias sobre a banda, um de página inteira. Alguns se perderam”, diz Chico da Rádio, que poderia, justamente, ser chamado de ‘Chico dos Jornais’. Até de ‘Chico da TV’: “Um ano, logo antes da banda passar defronte a Santa Casa de Misericórdia, pedimos silêncio aos foliões para não incomodar os internados. A massa de gente passou em silêncio. Ante o imponente respeito, um jornalista da Globo News, de tão impressionado, chamou-me para uma entrevista na altura do Calçadão do Kibon, que foi transmitida para todo o país e o exterior, e vista em vários países por são-joanenses e brasileiros”.
As ‘Domésticas’, se por um lado conquistou reconhecimento, admiradores e acompanhantes, por outro perdeu, avalia Roberto. “Hoje predominam homossexuais, mas o bloco já teve muito homem desfilando, hoje a maioria profissionais liberais, casados. Mas o que menos importa é o sexo, e sim a fantasia e a alegria”. Dedicado ao teatro, Roberto convida para o desfile “diferente e irreverente” que parte do terminal turístico e tem seu ponto alto nas escadarias do Teatro Municipal, no concurso que premiará “luxo” e “originalidade” das concorrentes. Entre os 7 a 11 julgadores, Roberto anuncia um pró-reitor da UFSJ, universidade que dentre seus ex-alunos de Letras tem um concluindo dissertação de mestrado sobre o Bloco dos Caveiras.
por: Edson Paz
Fotos: Beni Jr. www.saojoaodelreisite.com.br
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