Sebos e Livrarias
Literatura na TV
Bibliotecas


Busca
Página inicial Editora Ponte da Cadeia!
São João del-Rei, 06 de Setembro de 2010

O que é que o Bonfim tem?
Data: 26/01/2005
Visualizações: 354
 

O que é que o Bonfim tem?
26/01/ 2005
Depois do Centro, o bairro e adjacências é o mais carnavalesco, com três grandes blocos, fora alguns pequenos e a escola de samba União, que promete voltar



O que é que o Bonfim tem, para nos dias e noites de pré-carnaval e carnaval três grandes blocos descerem o morro, fora alguns pequenos e a escola de samba União, ausente desde 2001 mas que promete voltar em 2006? “Nunca esse assunto surgiu dessa forma nas conversas da nossa turma de sambistas”, diz Christiano Edviges Rodrigues, um dos coordenadores dos blocos ‘Copo Sujo’ e da ‘Chácara’. “Aqui no bairro tem muita gente ligada o ano todo em pagode e samba. No carnaval, acaba revertendo em bloco”, sorri o dentista.

 

Carlos Alberto da Rocha, diretor do bloco ‘Deixe o Mundo Girar’, ecoa a explicação de Christiano com o fraseado inicial do samba-enredo deste ano: “Bonfim, quando o sol nasce, o morro à vista / És colorido de sambista / Para coroar o Carnaval”. Dá um breque, e cutuca os sambistas de outros bairros com vara curta, como a com que se percutem os tambores: “O que falta a outros bairros, como Matosinhos, é iniciativa, coragem de fazer o carnaval”, opina o técnico em segurança do trabalho.

 

Essa “coragem”, segundo os dois, surgiu, nasceu e resultou nos três grandes blocos bonfinenses, a partir de mesas de bar. “O próprio nome ‘Copo Sujo’ atesta como o bloco nasceu”, evoca Christiano, referindo-se à designação brincalhona dado ao bar simples mas com petiscos e atendimento amigo em que sua turma de sambistas se reunia e prossegue se reunindo. “O nosso surgiu de conversas no antigo trailer ao lado do cruzeiro na praça do Bonfim”, bisa Carlos.

 

Fiéis às suas origens, os blocos partem para os desfiles também da porta de bares. ‘Copo Sujo’ e ‘Deixe o Mundo Girar’ fazem sua concentração na praça Guilherme Milward, a central do Bonfim, rodeada por cerca de cinco bares, copos sujos e trailer de sanduíches e cervejas. Já o da ‘Chácara’ parte do meio da rua Frei Estevão, algo distante do bar localizado no fim da rua, mas compensado por assediada barraquinha montada pelos organizadores, além de bebidas em caixas de isopor e guarda-malas de carros que percorrem os locais de concentração dos blocos.

 

A trinca de blocos, que sai em dias diferentes, cumpre quase que integralmente o mesmo trajeto, rumo ao mesmo destino. O rio de gente – o Copo Sujo é amazônico, seguido pelos medianos ‘Chácara’ e ‘Deixe o Mundo Rolar’ – desce pulsante-paulatinamente a rua Ribeiro Bastos, desembocando no Largo de São Francisco, onde se espraia em torno da bateria. Frente à igreja de sinos que repicam conclamando diariamente carnavalescos e ruins de samba no pé às missas, os blocos, cada um na sua madrugada, já beirando o dia, fazem o grande encerramento: breques (freios, paradas de segundos) anunciam repeniques (onde a percussão flui rápida, leve e repetida), e sobrevém o trovejar pesado/elegante da percussão. “O pessoal não agüenta bater noite e madrugada toda, os braços já estão cansados”, diz Christiano, revelando inopinadamente que o “halterocopismo” nos bares que gestaram os blocos não conta muito nestas horas.

 

Mas, fora as semelhanças – nascidos em bares, descem e encerram no mesmo local – que diferenças há entre os três do Bonfim? O da ‘Chácara’, que nos dias de Momo completa 21 primaveras, e o ‘Deixe o Mundo Girar’, que perfaz na segunda-feira pré-carnavalesca 19 revoluções da terra em torno do sol, reivindicam-se “familiares” – mais pessoas do bairro e menos de fora, e foliões de diferentes faixas etárias. Carlos diz que seu bloco abrange “crianças de 5 anos a avós de 70”, exemplificando com sua própria filha e avó. “Homenageamos em 2004 dona Mariinha, moradora de idade mas sempre alegre, que adora futebol e samba. Ela ouve bater a caixa de fósforo, tá sambando”.

 

Já o amazônico ‘Copo Sujo’, “devido à quantidade de gente, forte presença de jovens e a conseqüente demora em descer, exige cordas para separar a bateria dos foliões e seguranças para agilizar o desfile”, relata Christiano. Ele diz que o ditado “pra baixo todo santo ajuda” não se aplica ao bloco na descida do morro. “Concentramos às 21h, saímos às 23h e costumamos acabar às 5h, depois de meia hora de show final da bateria”. O trajeto tem meio quilômetro, pulado em 5 horas. O ‘Copo Sujo’ não deve estar muito distante do Guiness Book no recorde de marcha lenta. Nesse caso, e como evoca o próprio nome carnaval, quanto mais demorar, mais prazer.

 

Carlos diz que não quer retardar o prazer de ver o ‘Deixe o Mundo Girar’ girando com sua própria bateria. A ‘Chácara’ e o ‘Copo Sujo’ tem as suas próprias, comandadas por “mestre” Orlando. “Meu objetivo em 2005 é fazer eventos para arrecadar R$ 5 mil para comprar entre 20 e 30 instrumentos”. Já o Copo Sujo promove sexta-feira, 28 de janeiro, às 23h, na sede social do Athletic Club, o ‘Grito do Copo Sujo’, que ano passado levou ao salão alvinegro 1500 foliões. A renda dos ingressos é destinada a confecção de camisetas, manutenção de instrumentos de percussão e gastos com seguranças, despesas comuns a todos os blocos. Em tempos de apenas conversas em mesas de ‘copos sujos’, esses dispêndios inexistiam. “Há males que vêm para o bem (não vêm)”, canta letra não de samba, mas da banda roqueira Pato Fu.


por: Edson Paz


Foto primeira página: Beni Jr. http://www.saojoaodelreisite.com.br/


Clique para Voltar! Clique para imprimir! Clique para ir a página inicial!
 
Entre em contato!
VIDA CULTURAL
NAS VERTENTES
“À guisa de prefácio” ao jornalista e escritor pradense Luiz Adolfo Pinheiro
Anteriores
Leia
GARIMPANDO...
Jornal cultural local
Pequeno livro das distraídas linhas
Mínimas Coisas
 
E fique a par de novos artigos na seção PÉ-DE-MOLEQUE, o que sobressai na AGENDARTE, futuros lançamentos de livros...