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São João del-Rei, 06 de Setembro de 2010

Foliões e espectadores despojados dos desfiles carnavalescos
Data: 29/12/2004
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Foliões e espectadores despojados dos desfiles carnavalescos
29/12/ 2004
A partir da dificuldade consensual de se fazer desfiles com brilho devido ao pouco tempo e dinheiro, agremiações sambistas renegaram a correria feita para cumprir o calendário



Cerca de 5 mil foliões e igual número de espectadores foram despojados na noite de terça-feira, 28 de dezembro, do direito à fruição em 2005 da vigorosa cultura são-joanense de desfiles carnavalescos, seja descendo a avenida em uma das 14 agremiações ou contemplando da calçada ou arquibancada. A decisão, comunicada pelo prefeito eleito Sidney Antônio de Souza em reunião da Associação das Escolas de Samba, Blocos e Ranchos – Aesbra –, contou com a concordância “em número e grau” dos representantes das 11 escolas e 3 blocos que participam dos desfiles oficiais. Argumentação consensual: impossível fazer desfiles com “brilho” nas noites de 5 a 8 de fevereiro com pouco tempo e dinheiro – no caso, R$ 100 mil, que seriam liberados dia 20 de janeiro. Todos renegaram a “correria só para cumprir o calendário”, e se disseram “muito sentidos” com a resolução.

 

A decisão resultou, por um lado, pelo prefeito Nivaldo José de Andrade não ter repassado à Aesbra, até o dia da reunião, R$ 100 mil para o início do preparo dos desfiles. “A Prefeitura não tem verba”, alegou. Por sua vez, Sidney se justificou, em resposta à pergunta formulada por ele mesmo na reunião da Aesbra – “por que Sidinho não assumiu o total?” –, que “Nivaldo não honrou sua parte. Temos que dividir responsabilidades. Nossa parte íamos honrar”.

 

Os dirigentes carnavalescos, talvez sob o impacto do discurso legalista e da lógica administrativa apresentada pelo prefeito eleito, aplaudiram passivamente, sem mostrar nenhum traço de inventividade, criatividade, imaginação e ousadia, que são componentes do espírito do carnaval. Caíram na armadilha da falta de recursos e não se aventuraram em criar desfiles com menos dinheiro mas com mais criação e imaginação. Ficaram prisioneiros da verba pública integral, não ousando viver a paixão de construir desfiles carnavalescos com brilho mediante vestuários simples mas criativos, e maior teatralidade na ginga e evoluções, que são a razão de ser de agremiações carnavalescas. Na reunião, sequer se falou se alguma escola já havia escolhido seu samba-enredo.

 

Saídas para o suposto entrave do dinheiro, existem. A Secretaria de Cultura e Turismo podia, nos seus dois primeiros dias de trabalho, contatar uma fábrica ou grande loja de tecidos e outra de adereços para fornecimento direto aos dirigentes das escolas, até o teto estabelecido para cada um, e pagar tudo com um cheque só, até a prazo, diretamente da Prefeitura para as duas fábricas ou lojas. A Aesbra, em vez de ser um lugar do barulho ritmado, sincopado, que mexe com as cadeiras e a imaginação e a criatividade, foi na noite de terça-feira, 28, um lugar do silêncio, do consentimento. A Administração que tomará posse dia 1º, que tem um prefeito economista e administrador e um vice-prefeito estudante de filosofia, se revelou burocrática, descumprindo a promessa durante a campanha, de ser criativa.

 

O que ficou para 5 a 8 de fevereiro? A sugestão de um dirigente de uma escola, apelidado de “Tachinha”: “Agora é apoiar as bandas locais. Pôr palanque na avenida e banda para tocar, que é bonito”, disse, descartando “trios elétricos”. Sidney disse que ia ouvir seu secretário de Cultura e Turismo, que tomaria providências tão logo assumisse, para um “bom carnaval de rua”.

 

2006

 

As diretrizes para a evolução do carnaval 2006 pulsaram ao ritmo dos verbos organizar, programar, planejar, privatizar [proposição de Alexandre Rivetti, da Bem-Me-Quer], mudar. “Tem que mudar, é isso que queremos”, bateu o surdo Evandro Fazzion, ex-dirigente da Aesbra.

 

Propostas de mudanças apontadas pelos dirigentes carnavalescos? “Criar fundo [reserva de recursos monetários especialmente para o carnaval] no decorrer do ano”, disse um, reforçado por outro: “criar caixa para garantir verba em outubro”. Um terceiro ponderou: “Compramos coisas [adereços] mais barato antes da época. O ideal seria liberar parte da verba até meados de agosto”. Alguém foi além: “fazer eventos antecipados, como bingo. Não deixar a carga pesada para a Prefeitura, que não deve arcar com tudo, mas ajudar e apoiar”. Sebastião Machado Gomes, ‘Jacó’, fez fé na descentralização: “A gestão da verba e questão da infra-estrutura [arquibancadas, banheiros, sonorização] deve voltar para a Secretaria de Cultura e Turismo. Cada macaco no seu galho”, disse, certamente lembrando-se que Nivaldo concentra(va) tudo nas mãos.

 

Ao final da reunião, Waldir Raimundo das Chagas, ‘Caju’, foi homenageado pela Aesbra por 25 anos de trabalho voluntário na entidade. O prefeito eleito Sidney foi convidado a entregar placa com os dizeres “eterna gratidão”, lembrando que ambos estudaram juntos na antiga Faculdade de Ciências Econômicas, Administrativas e Contábeis – Faceac, hoje campus Santo Antônio da UFSJ, onde ‘Caju’ trabalha desde a federalização da instituição.

 

Coincidindo com a homenagem, os tambores começaram a percutir defronte ao Cemitério do Carmo, vizinho à sede da Liga Municipal de Desportos, local da reunião, como que anunciando que o carnaval não morreu. Era a bateria da Escola de Samba Irmãos Metralha iniciando ensaio para se apresentar no réveillon do Athletic Club.


por: Edson Paz

 

 

foto primeira página: o prefeito eleito Sidney e o presidente da Aesbra, Celso Arcanjo da Silva, na cabeceira da mesa da reunião


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