|
Fome de samba por mais um ano 27/10/ 2004 Carnaval de 2005 deve continuar sem a União, escola de beldades e caprichadas alegorias. Outra nuvem na folia provém da Lei de Responsabilidade Fiscal
A agremiação carnavalesca bonfinense União, que fez sua parte para driblar a crise dos anos 90 na folia são-joanense com alegorias trabalhadas, belas mulheres e visível superioridade, manterá por mais um ano guardada a bandeira vermelha, azul e branca. A escola, desde sua criação (1990) a preferida da classe média são-joanense, desfilou pela última vez em 2000, com o enredo “Triunfo Barroco (O ciclo do ouro)”, e não deu as caras nos quatro anos do prefeito Nivaldo José de Andrade.
O motivo: “desfilar sem planejamento não dá. Como temos certeza que o prefeito não passa os recursos [às agremiações] até o fim desse ano, asseguro que a escola não sai em 2005”, diz o presidente e um dos fundadores da União, Antônio José da Silva Filho. “Não ficamos quatro anos sem desfilar por rixa com o Nivaldo, como dizem, mas para protestar contra a transferência de verba sempre de última hora e contra o descaso com o carnaval. Se as outras escolas aceitaram desfilar nessas condições, eu lamento, mas o diferencial da União, modéstia à parte, é a qualidade de suas alegorias e enredos, planejados com antecedência e profissionalismo”.
A União, criada em 90 após fusão entre o bloco Cordão Encarnado (herdeiro da escola Qualquer Nome Serve) e a escola de samba Mocidade Independente do Bonfim, desfilou em seis dos sete desfiles da década. Venceu quatro deles (91, 92, 97 e 2000); em um dos anos não houve disputa, e em 1996 terminou na terceira colocação. Pela escola, cujas entidades de origem sempre possuíram vínculo com a classe média, já desfilaram os políticos Antônio Carlos Fuzatto, Rômulo Viegas e Fernando Vera Cruz. “A intenção, no momento em que foi criada, era torná-la uma escola de comunidade, com maior participação da população do Bonfim, coisa que nunca aconteceu. A presença de moradores do centro e até de fora de São João sempre foi muito grande”, diz Antônio José.
2000: uma reação tardia?
Em 2000, a União desfilou com 285 integrantes – comissão de frente, seis alas, três carros alegóricos, mestre-sala, porta-bandeira e bateria – para enaltecer a riqueza econômica e a sociedade do século 18 mineiro. “Passado que já não volta mais, nunca mais, é a glória de Minas Gerais”, dizia o samba de Jota Dângelo (pai) e Virgílio (filho), como que uma reflexão simultânea sobre o estado de agonia e morte lenta do carnaval são-joanense, que hoje vive da lembrança ‘gloriosa’ dos anos dourados de 70 e 80.
O carnaval de 2000 foi o único da era de decadência a permitir que as escolas de samba preparassem seus desfiles com meses de antecedência, assegura o diretor carnavalesco da União, Jota Dangelo, em “Subsídios para uma História do Carnaval de São João del-Rei de 1950 a 2000” (Ed. Atheneu Cultura, 2003): “o carnaval de 2000 foi o mais exuberante e, sem dúvida, o melhor da década de 90, provando que, decidido com antecedência, suas possibilidades de sucesso são maiores. Foi um grande carnaval de rua”.
O professor de violão José Leandro Fernando Silva, 27, conta que em seu primeiro desfile na União recebeu “um chocalho, instrumento discriminado entre os bateristas. Como todos, eu queria o bumbo ou o tarol. No terceiro desfile, me ofereceram o reco-reco [de igual rejeição nas baterias das escolas]. Fiquei macho”. José Leandro tocou cavaquinho em 2000. “A União estava muito além das outras: tudo muito chique, impecável; o samba, de refrão fácil, empolgava. Foi o melhor desfile da escola”, diz. “As mulheres da escola, a maioria de classe média, carregam a fama de não saber dançar. Essas críticas vêm das mulheres do São Geraldo, que põem o samba no pé e descem pra desfilar”.
A proprietária de pousada Moema de Almeida Magalhães Sabino de Freitas (foto), 52, possivelmente a primeira madrinha de bateria da história do carnaval, viu no desfile de 2000 a concretização de um “sonho”. “Desfilei pela primeira vez aos 14 anos, e já naquele momento eu planejei sair, mais velha, na ala das baianas. Realizei esse sonho em 2000”. Segundo Dangelo, “a Falem de Mim inventou a ‘madrinha de bateria: Moema Magalhães. No Rio nem se falava disto. E ainda levaria anos para que lá houvesse. Moema surgiu exuberante, escultural e contagiante”. A Falem de Mim foi fundada pelos pais de Moema, o banqueiro Rômulo de Almeida Magalhães e sua mulher Lígia Vellasco, em 1968.
Moema, “há 32 anos” participando do carnaval são-joanense, desfilou em 2004 na Unidos de São Geraldo, que homenageou os grandes compositores da folia local. Por acaso. “Substituí minha filha, impossibilitada de desfilar por ter torcido o pé na noite anterior. Fui ainda mais motivada por saber que vestiria uma camisa branca escrita ‘Nequinha Guerra’, pra mim um dos maiores nomes do carnaval. Desfilei sob tempestade, feliz da vida”.
Nuvens sobre o carnaval
Incertezas quanto à verba pública pairam sobre a folia de 2005. “O grande problema é que o repasse de recursos à Associação das Escolas de Samba, Blocos e Ranchos de São João del-Rei – Aesbra – teria que ser feito no fim desse ano. Se isso não acontece, fica difícil para o futuro prefeito acertar, em um mês entre a posse e o carnaval [5 a 8 de fevereiro], o repasse de verba”, adianta o vereador José Raimundo Dias, presidente do PT municipal.
José Raimundo diz que a nova gestão descarta a captação de recursos entre os governos federal (PT) e estadual (PSDB) – “a Prefeitura está inadimplente e incapacitada de recebê-los” – mas não da iniciativa privada. “A própria Aesbra poderia receber essas verbas federais e estaduais, mas teria que ser transformada em entidade de ‘utilidade pública’. Fazer isso em um mês será muito difícil, pela burocracia que isso implica”.
Para Antônio José – integrante e conhecedor da folia são-joanense de muitos carnavais, além de ser um dos intérpretes da União e ex-presidente da Aesbra –, um mês para resolver a questão financeira do carnaval pelo prefeito eleito é “pouco”. “Sou favorável a que nem haja desfile no próximo carnaval, e já fui informado de que provavelmente não haverá”. José Raimundo descarta a hipótese. ‘Sidinho’ e o vice Cristiano Tadeu da Silveira não foram localizados pela reportagem.
O presidente da Aesbra, Celso Arcanjo da Silva, diz que Nivaldo, em conversa pós-eleitoral, afirmou que “não pode deixar dívidas à próxima gestão por causa da Lei de Responsabilidade Fiscal, e que não poderá repassar a verba esse ano”. A respeito da estrutura do próximo desfile, diz que ainda “não houve reunião” da diretoria para discutir o assunto. Quando haverá? “Em novembro, sem data definida”.
por: Pedro Belchior
|