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São João del-Rei, 06 de Setembro de 2010

Chega de jejum de samba e de verba, clama Sabará
Data: 30/07/2004
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Chega de jejum de samba e de verba, clama Sabará
30/07/ 2004
O diretor da agremiação São Geraldo inicia uma volta por cima na abstinência de batuque durante o ano e de dinheiro para a folia de Momo. Como?



São Geraldo, nascido em 1726, quando os escravos iniciavam a escavação de betas nas rochas do hoje bairro São Geraldo e batucavam escondidos as raízes do samba que faz do bairro o berço dos melhores compositores da cidade, era dado à prática do jejum. Mas o presidente do Grêmio Recreativo Escola de Samba São Geraldo, Valdomiro José de Paula, ‘Sabará’, diz estar cansado do jejum de verba carnavalesca e da abstinência total de samba em que se vê São João del-Rei durante o ano. Descontente com a cidade “só ver samba no carnaval” e com o “entra prefeito, sai prefeito, e a verba é deixada para as vésperas da folia”, entoa, em pleno inverno, o refrão: “temos que manter o samba vivo aqui e arrecadar verba para a São Geraldo”.

 

Um jantar dançante na noite de 11 de setembro, quatro dias após o desfile cívico da proclamação da independência, quer iniciar a libertação da escola da dívida “de quase R$ 3 mil” herdada do último carnaval. “Realizamos eventos para aumentar a verba repassada pela Prefeitura, mas mesmo assim ficamos devendo. As coisas estão muito caras. Hoje em dia ninguém faz as coisas por prazer. Se pedir a alguém para bater um prego para mim, ele vai me cobrar”. Sabará acredita que “até o final do ano a dívida estará paga, e os próximos eventos serão para arrecadar fundos para o carnaval de 2005”.

 

O jantar – com “um conjunto que toca de tudo, mas ainda não decidimos qual” –, às 20 horas, no salão comunitário do bairro (rua Urbano Ribeiro de Carvalho, 192), terá “arroz, pernil, maionese e farofa”, com ingresso individual a R$ 5, não incluindo bebida. A luta pela independência em relação à dívida tem outra frente de combate: a rifa de um ventilador de teto, conseguido através de doação, com sorteio pela Loteria Federal no dia do jantar, e bilhete a R$ 2. Os ingressos para ambos podem ser adquiridos com membros da diretoria do São Geraldo.

 

Jantar e rifa realizados, a diretoria prossegue no empenho de “manter o samba vivo em São João e arrecadar verba para a São Geraldo” com rodas de samba aos domingos pela manhã no bairro. “O grande objetivo é manter a tradição do samba na cidade, mas pretendemos arrecadar dinheiro vendendo caldos”, diz Sabará. O presidente, para evitar que o jejum prezado pelo santo que dá nome ao bairro não impere no meio sambístico local, evoca o sucesso do ‘São João dá Samba’ – apresentações de um grupo de sambistas no Inverno Cultural relembrando composições de antigos sambistas são-joanenses –, realizado no bairro São Geraldo em 2003, e não nesse ano: “Foi o maior sucesso. Lotou de gente e todo mundo adorou. Eventos como esse, que mantêm viva a tradição do samba, deveriam ter continuidade. Só acontecem durante os quinze dias do Inverno Cultural e depois só no próximo ano”.

 

Sabará proclama que o comércio poderia apoiar mais o carnaval, “principalmente os hotéis e restaurantes, que são os que mais ganham nessa época por causa dos turistas que lotam a cidade. A Aesbra [Associação das Escolas de Samba, Blocos e Ranchos de São João del-Rei] deveria pedir mais apoio ao comércio”. Quanto à verba do poder público municipal – Prefeitura –, Sabará não demonstra animação: “Independente do prefeito eleito dia 3 de outubro, o carnaval vai continuar sendo de última hora. Sou presidente de escola há 26 anos. Entra prefeito, sai prefeito, e tudo é deixado para as vésperas do carnaval”.

 

“Chama do samba acesa” ao longo do ano 


A nova diretoria da Aesbra, empossada dia 6 de julho, “planeja realizar eventos grandes unindo todas as escolas de samba, mas não há nada decidido”, diz a vice-presidente Eliana Maria de Lima, que atribui a falta de planos claros, definidos, ao pouco tempo de gestão da diretoria. “Os eventos isolados realizados pelas escolas não dão muito lucro”, diz Eliana, também vice-presidente da tejucana Vem-Me-Ver. “A idéia da Aesbra é realizar grandes eventos, com participação de todas as escolas, blocos e ranchos. Queremos realizar shows na avenida Presidente Tancredo Neves com as baterias de cada agremiação. O lucro das barraquinhas montadas para vender coisas de comer e beber será dividido entre as agremiações. Para que isso dê certo precisamos do empenho e do trabalho de todas as diretorias juntas”. Eliana frisa que “por enquanto tudo é só idéia. Estamos na diretoria da Aesbra há menos de um mês. Na primeira reunião, trataremos do assunto”.

 

Eliana concorda que “samba em São João, só no carnaval”, e diz que a Aesbra “quer manter a chama do samba acesa durante todo o ano. Ainda não sabemos como, mas vamos fazer alguma coisa. Além dos eventos resgatarem a cultura, ajudam as escolas a aumentar a verba para a realização dos desfiles. Infelizmente, as escolas ficam esperando a verba repassada pela Prefeitura, que normalmente é pouca e chega tarde, o que faz com que o desfile seja feito de última hora, comprometendo sua qualidade. As diretorias das agremiações estão meio paradas ainda. Elas só começam as movimentações em setembro ou outubro, muito perto do carnaval”.

 

Eleições municipais

 

As eleições municipais de 2004 preocupam Eliana, “pela posse ser em janeiro e o carnaval no início de fevereiro. Não vai dar muito tempo para negociações. A não ser que o atual prefeito já deixe uma verba reservada para o carnaval de 2005, o que acho meio difícil. Por isso a Aesbra quer conversar com cada candidato antes das eleições, para ver como vai ficar a liberação de verba do carnaval”.


por: Juliana Costa


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