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Um carnaval ao som de trombone 09/02/ 2004 O primogênito Amizade e o caçula Leva Eu, nascidos em bares da cidade dos biscoitos, reavivam marchinhas e arrastam "gatinhos".
Exclusivo de Carrancas até surgir o de Coronel Xavier Chaves e o de Conceição da Barra de Minas, o pré-carnaval na microrregião do Campo das Vertentes tem desde 1983 uma modalidade diferente em São Tiago. Um mês antes do carnaval os dois blocos carnavalescos locais se alternam noite após noite, de segunda a sexta-feira, em desfiles que atravessam a pequena área urbana de sete mil moradores – o município, a 44 km de São João del-Rei, tem 10.500 habitantes. Nas segundas, quartas e sextas-feiras o bloco da Amizade, com 21 anos, põe seus trinta instrumentos – trombones e percussão – para “reviver a tradição das marchinhas”, e às terças e quintas-feiras é o bloco Leva Eu, criado em 1999, que revive “os antigos carnavais”.
A idéia de se criar o bloco da Amizade “surgiu com seis amigos papeando numa mesa de bar. Ao lembrarmos um antigo bloco, o do Zé Aleluia, que saía do centro da cidade, resolvemos resgatar a tradição. O Amizade é a essência do carnaval de São Tiago, a muvuca que faz a festa. Quem leva o grande público para a avenida é o bloco, inclusive houve ano que o Amizade foi o único evento da festa", conta Antônio Helízio de Almeida, ex-presidente do bloco. O Leva Eu também nasceu em conversas na mesa do bar, só que noutro, “no do Nereu, no bairro do Cruzeiro”, conta Assis José dos Reis.
Dezesseis anos antes do caçula nascer, o primogênito Amizade “promovia ações para conseguir os instrumentos”, lembra o secretário do Amizade, José Gilmar de Assis. Helízio completa: “o Domingos, um dos fundadores, conseguiu um tarol e um pistom, a turma fez um surdo e começamos a sair pelas ruas. Apesar dos poucos músicos, eram muitas as pessoas que participavam da festa”. Assis José, do Leva Eu, revela que o bloco tem nove instrumentos de sopro e doze de bateria. “Para tocar é necessário fazer um teste de habilidade, que é avaliado pelo mestre de bateria”.
Em 1989, um membro da direção do bloco da Amizade, conhecido como Zequinha, teve a idéia de fazer uma alvorada na madrugada de sexta para sábado, abrindo o carnaval. “Se tem alvorada festiva para ocasiões religiosas, porque não acordar o pessoal para o carnaval? Como é de madrugada cada um sai do jeito que quiser, até de pijama. A alvorada, com início às 4h da manhã, é o melhor dia e deixa todo mundo ansioso”, diz Helízio. "Esse ano os dois blocos vão sair juntos na alvorada, formando uma espécie de bandão, com partida do centro da cidade", antecipa Assis.
Apesar de carnavalesco, o bloco da Amizade tem estatuto oficial: registrado apenas em 1986, três anos depois de sua criação, tem estatuto publicado no Diário Oficial estadual e registro na comarca com certificado de filantropia. No caso do Amizade, filantropia não quer dizer caridade. “O bloco vive de contribuições dos sócios beneméritos, honorários e contribuintes, e recebe uma verba municipal da Prefeitura”. O bloco Leva Eu também possui registro oficial datado de 1999.
Quando o bloco da Amizade começou, havia um boi, que era uma alegoria e um atrativo para as pessoas, e no ano seguinte criou-se uma namorada para o boi, a mulinha. Helízio comenta que “esses dois personagens ficaram muito batidos e foram substituídos por bonecos gigantes, geralmente um casal”. Se o boi e a mulinha deixaram de existir, os gatinhos permanecem. No período carnavalesco os foliões se ocultam em fronha de travesseiro reproduzindo a aparência felina, acompanhando os blocos e mexendo com as pessoas. Fernanda Aparecida de Freitas, secretária da Junta Militar de São Tiago, sai “de gatinho desde que era pequena. Depois fiquei um tempo parada, por falta de companhia. Eu ia sozinha?” Hoje, ela e o namorado acham “divertido e engraçado poder se fantasiar e mexer com quem você não conhece. Quando descobrem minha identidade peço que não revelem para ninguém, para não perder a graça”.
Helízio lembra que “os gatinhos vêm desde o bloco do Zé Aleluia, e quando o bloco da Amizade retomou a tradição da batucada pelas ruas, os fantasiados se agregaram ao grupo dando um colorido especial à festa”.
por: Douglas Caputo |