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São João del-Rei, 06 de Setembro de 2010

Regimento Tiradentes é lembrado na autobiografia de Darcy Ribeiro
Data: 12/12/2007
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Regimento Tiradentes é lembrado na autobiografia de Darcy Ribeiro
25/11/ 2003
Nascido gaúcho e virado são-joanense ao retornar da Guerra de Canudos, o aniversariante é lembrado no livro “Confissões”, do antropólogo Darcy Ribeiro

 

Uma semana antes de São João del-Rei comemorar seu 290º aniversário, os 44 músicos da Banda de Música do 11º Batalhão de Infantaria da Montanha, o Regimento Tiradentes, farão soar marchas e dobrados. Não sons militares, guerreiros, mas festivos, pela passagem do 115º aniversário da “única unidade de montanha do Exército brasileiro”.

 

A programação do aniversariante – que nasceu gaúcho, em Rio Pardo, às vésperas da República, batizado como 28º Batalhão de Infantaria, e se fixou em São João del-Rei em 1897, ao retornar da Guerra de Canudos – toma a sexta-feira, sábado e domingo, 28 a 30 de novembro, com atividades religiosas, oficiais, sociais, esportivas e emotivas: 9º Encontro de ex-integrantes do Batalhão e montanhistas, culto, formaturas, demonstrações de montanhismo, noite musical, caminhada na serra, almoço de confraternização, prática de esportes, jantar dançante, café festivo e despedida das comitivas.

 

O antropólogo, criador da Universidade de Brasília, ministro da Educação e chefe da Casa Civil no governo João Goulart, senador (falecido em 1997) Darcy Ribeiro conta no livro “Confissões” uma passagem de sua juventude ocorrida nas dependências do Regimento Tiradentes:

 

Em Montes Claros “fui surpreendido pelo chamado do Exército, que estava treinando rapidamente bancários e universitários para a FEB. Minha sensação foi de perplexidade. Queria gostar de ir para a guerra, brigar de arma na mão, fazer façanhas matando alemães. Mas me comovia também a tristeza que caiu nas famílias dos convocados, sobretudo na minha. Todas entregues a choros deslavados, com medo de perder seus rapazinhos. A guerra para mim era questão ideológica. Sendo comunista militante, eu tinha que enfrentá-la como um dever até honroso. Para a gente mineira, era coisa de Getúlio que, depois de brincar de pró-germânico, caiu nos braços de Roosevelt. 

 

Um dia chegou a Montes Claros a composição ferroviária que ia levar todos os convocados da região para São João Del Rey. Nela entramos nós, querendo parecer alegres, valorosos. Só de Montes Claros havia mais de vinte. A choradeira das mães, namoradas e parentas daria para lavar a praça da estação. 

 

Em cada cidade que passávamos o trem parava para receber mais algum convocado, e se repetia o lamento. Onde eu tinha antigas namoradas, como em Bocaiúva e Curvelo, ganhei os abraços mais apertados que elas me deram, até beijos de boca lhes roubei. Desembarcamos, afinal, no grande quartel do Exército em São João Del Rey. Lá comemos o rancho, que para nossa fome pareceu até muito boa comida, e dormimos sobre nossas trouxas num barracão. 

 

O dia seguinte foi de exame médico. Nunca vi coisa mais deprimente. Milhares de jovens mineiros nus em fila, com seus corpos malformados, tortos, feiíssimos. Um e outro, aqui e ali, exibia alguma robustez e esbelteza. Não eu, que era um magricelo raquítico. Que bom andarmos vestidos, assim nos livramos e a todos do espetáculo de ver tanta feiúra. 

A fila andava lenta na direção dos médicos, que olhavam cada jovem, examinavam sua ficha, pesavam, faziam duas perguntas, agarravam o pau e espremiam. Lá fui eu, naquele trote lento. Chegada a minha vez, o médico, espremendo meu pau, arrancou uma gota amarela. Só disse: ‘Gonorréia. Vá pro lado de lá’. 

 

Assim me salvei da guerra, de ser um herói e quem sabe até de chegar a general”. 

 

"Confissões", Darcy Ribeiro (capítulo ‘A guerra’, páginas. 92-94), 1ª edição, 1997, Editora Companhia das Letras, 590 páginas. http://www.companhiadasletras.com.br/

 

por: Edson Paz


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