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Santa Cruz de Minas, em pleno pólo turístico cultural da Estrada Real, tem biblioteca pública por iniciativa particular
(Papo & Compasso, janeiro de 2007)
Turistas que atravessam Santa Cruz de Minas pela Estrada Real vêem a Serra de São José, o Rio das Mortes e muitas lojas de produtos artesanais, mas jamais vislumbrarão que a concentração urbana, em pleno roteiro histórico-cultural-ambiental, não tem biblioteca pública. Mantida pelo poder público não, mas sim por uma família de pouco poder aquisitivo, em duas dependências da casa. A biblioteca comunitária, inimaginada pelos turistas, desprezada pelas autoridades municipais e paulatinamente prestigiada por moradores é, simbolicamente, um grande patrimônio cultural local hoje.
Idéia nascida em dezembro de 2004 pelo gosto por livros de história medieval do caçula de três irmãos Júlio César Laudares Gulpilhares, hoje com 13 mas à época com 11 anos, a família partiu dos cem volumes que tinha em casa – “a maioria enciclopédias e livros espíritas” –, obteve duzentos com uma tia e parentes de Belo Horizonte, e pediu doações por rádios, TV e jornais locais. Ao longo de dois anos, a biblioteca alcançou “mais de nove mil” publicações, “incluídas as revistas”. Maristela Laudares Gulpilhares, mãe, auxiliar de enfermagem e coordenadora da iniciativa, informa: “gente liga e traz os livros – uma vez recebi 400 – ou pede que os busquemos. Um rapaz trouxe duas caixas de livros e voltou mais tarde com estantes. Uma moça trouxe livros e depois retornou com estudantes dos cursos de Letras e Pedagogia da UFSJ para ajudar a separar por áreas. Troco os livros repetidos em sebos, onde compro muito pouco, pois não temos dinheiro. Temos só um exemplar de cada título, fora os didáticos e enciclopédias”.
Essas “mais de nove mil” publicações aguardam interessados e amantes locais da leitura num cômodo que evoca sardinhas em lata: três metros de largura e altura, cobertos com telhas comuns de barro cozido, abrigam estantes de madeira, de metal e de cimento, mais um armário metálico prenhe de revistas. Com livros até sobre a cabeça – pois há volumes dispostos nas travessas de madeira que amparam o telhado – e em meio ao reduzido espaço para se locomover, o interessado perscruta as lombadas nas diversas prateleiras equivalentes a seções: Enciclopédias, Dicionários, Biografias, Saúde / Medicina, Espíritas, Evangélicos / Católicos e por aí vai. Há prateleiras reservadas a livros de História, uma específica de livros sobre São João del-Rei, autores são-joanenses e publicações do Instituto Histórico e Geográfico local, e Literatura, entre outras.
Na de Literatura, que se mistura com Ciências Humanas, há obras, entre centenas de outras, de Baudelaire, Jean Genet, Gore Vidal, Heminghway, Herman Hesse, Doris Lessing, Foucault, Nietzsche, Darcy Ribeiro, Rubem Fonseca, Ignácio de Loyola Brandão, Vinícius de Moraes, Paulo Coelho e Drauzio Varella. Livros de ou sobre música? A bibliotecária de fato Maristela disse que só haviam revistas e fascículos, como a coleção Grandes Sucessos, da Abril Cultural, com compositores e intérpretes de renome, mas à primeira vista foram encontrados dois: “Memórias do Café Nice – Subterrâneos da Música Popular e da Vida Boêmia do Rio de Janeiro”, de Nestor de Holanda e “Rua dos Artistas e Arredores”, de Aldir Blanc. A biblioteca tem jóias como “Memórias sobre a Paleontologia Brasileira”, de Peter Wilhelm Lund (Instituto Nacional do Livro, 1950), livros antigos sobre indiologia e até um de Alan Watts, um pensador ícone da contracultura, e curiosidades como livros em esperanto.
Mas as publicações mais retiradas são revistas em quadrinhos, pela garotada local. “Anos de Ouro do Pato Donald”, uma edição especial com 316 páginas grandes é, segundo Maristela, o mais requisitado. Ela diz que em seguida vêm os livros didáticos, e depois revistas com orientações sobre problemas de saúde, como diabetes. O cômodo pequeno e o maior, que abriga as publicações didáticas e para crianças, têm cartazes e folhetos relativos a Farmácia Popular e direitos dos cidadãos.
Maristela anota as retiradas em um caderno comprado com R$ 2,00 de inscrição dos 150 leitores inscritos. Até outubro, quando da visita do repórter, haviam sido emprestados 3.550 títulos, “nenhum não devolvido”. Podem ser levados dois livros de cada vez por um período renovável de dez dias. A cuidadora de enfermos que se descobriu cuidadora da parte incorpórea, inteligente ou sensível dos santa-cruzenses diz que o leitor mais assíduo é o aposentado sexagenário Osnei Olavo de Souza, vizinho da biblioteca, que retira “uma média de cinco livros por semana”. Escolhidas ao léu duas anotações de suas retiradas, lá constavam: Charles Dickens, William Styron, Jack London, Harold Robbins, Chico Buarque, Márcio de Souza e Aldir Blanc. O segundo maior leitor é o adolescente Jean Carlos Rocha, de 16 anos, cujas retiradas, de vários autores e temas, são “lidas também pelas duas irmãs e mãe. Quer dizer, o livro sai uma vez mas é lido por quatro”, diz Maristela. “A Cor Púrpura”, de Alice Walker, que virou filme, foi um dos lidos pelo quarteto familiar.
Já o leitor Júlio César, 13 anos, inspirador da biblioteca, gosta muito de “Senhor dos Anéis”, de Tolkien. Diz que os amigos do Colégio Estadual Cônego Osvaldo Lustosa, em São João, também gostam de ler, e já levou “cerca de cem livros” para empréstimo aos colegas, que assim não precisam de pegar ônibus para ir à sua casa. Conta que costuma ler no ônibus e que aprendeu “um monte de coisas” com a literatura, mas não conversa sobre as histórias com os conhecidos. Joga bola – “zagueiro direita” – e vídeo-game.
O pai, Nelson Almeida Gulpilhares, conta que ouve de pessoas na rua a frase “Eu não gosto de ler, tenho pavor”. Comenta: “A hora que acharem um livro que gostem, tomam gosto. As pessoas lêem pouco. Estão todos sofrendo, cheios de problemas. A leitura ensina, é um caminho para coisas novas”. Maristela conta que conhecidos a chamam de “louca. Trabalha de graça, pára o almoço para atender!”. Diz que é uma maneira de “retribuir o que tem ganhado pela ajuda de Deus na doença do marido. Não nos consideramos donos da biblioteca, mas responsáveis por ela”.
Seu objetivo é que a biblioteca “seja mais conhecida”, e que tenha melhores acomodações. Para isso, precisa de material de construção para ampliar o cômodo dos livros, e de R$ 100,00 para registrar a biblioteca como “comunitária particular”, o que permitirá receber doações de livros dos governos federal e estadual e de instituições. Um minúsculo município, além das oportunidades de trabalho e renda aguardados ansiosamente do turismo via Estrada Real, também se constrói com livros. Ou não?
A biblioteca fica à rua Prados, 320, bairro Porto Real, próximo à ponte dos Rio das Mortes, e funciona no horário comercial. Telefone: (32) 3372-6945.
por: Edson Paz |