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São João del-Rei, 06 de Setembro de 2010

Crônica de viagem ao inverno europeu
Data: 11/03/2005
Visualizações: 208
 

Crônica de viagem ao inverno europeu
11/03/ 2005
Do frio abaixo de zero, o professor Cláudio Leitão, do curso de Letras da UFSJ, revela o interesse pelo Brasil na bela e distante capital da Hungria de hoje


Cláudio Leitão

 

Budapeste, Hungria – “Houvemos vista de frio”, escreveria Caminha se navegasse pelo Danúbio agora até Budapeste. Melhorou, mas houve dias em que uma barra de ferro atirada ao ar não cairia por causa da neve e pelo congelamento da gravidade. É o inverno mais frio depois de muitos anos. Não se vê turista brasileiro. Vi, sim, duas brasileiras que procuram trabalho para viver aqui. Passeiam turistas japoneses, italianos, espanhóis, franceses, ingleses, alemães. A cidade é linda e os habitantes não são púcaros nem búlgaros. Simplesmente húngaros e húngaras. Altos, médios e baixos, louros e morenos, mestiçados, olhos escuros para o azul ou para o verde. Brilhantes os olhos. Verde-escuro é a cor das águas do Danúbio. Consumistas como os brasileiros. Depois de séculos de domínio externo, querem festa e começaram por onde foi possível. A vaidade. A vantagem deles sobre nós é que aqui é a Europa. Buda e Peste, cidades remotamente separadas pelo rio, uniram-se quando se fez a primeira ponte numa só. Conurbação, dizem os geógrafos. Não há mais sinal de duas mas de muitas vilas e eras que vêm do tempo de Carlos Magno ao pós-moderno século XXI.

 

A escola não muito antiga foi o contato. A Universidade de Budapeste, a ELTE (Eotvos Lorand Tudomanyegyetem), fundada em 1635. O interesse dos húngaros pelo estudo do português é discreto mas tem tradição. Quase 200 alunos no país. O português do Brasil ganhou atenção, já que a América Latina e o Brasil exercem hoje atração comercial, cultural e política. Férenc Pál foi o tradutor de Macunaíma de Mário de Andrade e de coletânea de poemas de Haroldo de Campos, dentre outras e chefia o Departamento de Português agora interessado pela modalidade brasileira da língua e tudo o que ela transmite. Sérgio Costa, doutor pela PUC-SP, é o professor brasileiro atual, pelo programa de leitorado Capes-Itamarati. Os lusos têm o Instituto Camões a dar-lhes grande apoio material. Na falta de um instituto similar, o embaixador do Brasil respalda no possível o nosso lado do serviço. Os alunos são sérios e escrevem bem nossa língua. Supõe-se que na sua também.

 

Por falar em língua dos húngaros, há sérias hipóteses que não solucionam o isolamento. São hipóteses. A dificuldade dos estrangeiros com o magiar está no fato de não se assemelhar a nenhum outro idioma europeu. O alfabeto é o latino, o mesmo que usamos. A estrutura sintática é similar à das línguas eslavas e germânicas, em que o adjetivo precede o nome. Há uma certa aglutinação nos vocábulos que se formam no uso dos falantes e que se assemelharia ao alemão. Entretanto o vocabulário a gente estranha mais que gata parida a um filhote manuseado, embora uma parte das palavras descenda do grego e do latim, como as línguas com que mais convivemos. Parece mágica essa estranheza. Disseram que até o diabo respeita. Mas não é a língua do cão chupando manga no meio da neve. Em Budapeste todo mundo sai com cachorro e criança pequena de carrinho para o meio da neve. Ao médio observador é dado perceber muitos desses traços da língua magiar em pouco tempo. Em semanas, se se tem contato com a escola em que pude trabalhar. Não é difícil circular sozinho por Budapeste, hospedar-se, alimentar-se, orientar-se, pedir e obter informação. Basta um pouco de inglês. Sem um pouquinho de inglês não se vive nem mais no Brasil.

 

Em turco, alemão ou russo, regimes fechados antecederam o século XX aqui. De 1989-1990 data a atual fase de abertura. De 1º de maio de 2004 data o ingresso na União Européia. Na praça ou parque das estátuas, na periferia bem periférica da capital, estão expostos num cercado de tijolinhos vermelhos com frontão clássico os enormes monumentos escuros de Lênin, Marx e outras representações do domínio soviético. Uma única peça ali recolhida das praças da capital e cidades do interior é de tom claro. É o monumento à resistência democrática aos falangistas espanhóis e contra a covardia infligida à cidade basca de Guernica. Lê-se nele: 1936-1939. Agora que circulam os cabeças-raspadas guardiães da xenofobia e do racismo, a peça clara deveria ter permanecido onde foi inaugurada.

 

Cidadão espanhol é grande herói de hoje – o craque Férenc Puskas, habitante de Budapeste e remanescente da legendária seleção de 1954, ídolo do Honved e do Real Madrid. O melhor estádio da Hungria tem o seu nome.


CLÁUDIO LEITÃO é professor de Letras (mestrado e graduação) na UFSJ e autor do livro Líquido e Incerto – Memória e exílio em Graciliano Ramos , pela Editora da UFF.


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