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“Todo professor no Brasil deveria ser um leitor” 14/05/ 2004 Cláudio Leitão, do Departamento de Letras da UFSJ, lança ‘Líquido e Incerto’, sobre o registro autobiográfico de Graciliano Ramos, de infância "longe de livros"
Indagado da possibilidade de se aproximar as pessoas da leitura em pleno império da mídia audiovisual, o professor de Letras da UFSJ Cláudio Correia Leitão responde: “Não sei. Mas esse não é um problema nacional apenas. É planetário”. Pernambucano de Recife crescido no Rio de Janeiro, Leitão lança quarta-feira, 26, às 20h, no Centro Cultural da universidade (Solar da Baronesa), seu primeiro livro “Líquido e incerto: memória e exílio em Graciliano Ramos” (Eduff/UFSJ, 138 págs).
O livro parte das memórias do escritor alagoano (1892-1953), registradas em “Infância”, ressaltando a linguagem da obra, e não os aspectos sócio-econômicos – o registro lírico e duro sobre seca e pobreza no interior do Nordeste – várias vezes evocados em pesquisas sobre o escritor. Em “Infância”, Graciliano traz à memória seu difícil processo de alfabetização, uma formação longe de livros e leitores – o que Leitão chama de “exílio da escrita”.
Em entrevista, o professor da UFSJ fala sobre o que o moveu a escrever sobre ‘Infância’, reflete sobre o analfabetismo e a falta do hábito da leitura no Brasil – “são raros aqueles cujos quatro avós foram leitores” – e aponta um dos motivos pelos quais as escolas brasileiras não conseguem formar bons leitores.
Ponte da Cadeia: O que suscitou seu interesse sobre o livro ‘Infância’, além do senhor ter nascido na mesma região de Graciliano Ramos?
Cláudio Leitão: A escolha de Graciliano tem a ver com eu ter nascido no Nordeste e crescido no Rio de Janeiro, numa família nordestina. Foi um encontro vivo com a língua culta dos meus antepassados. Falo nisso na apresentação do livro. Quanto à escolha de Infância, deveu-se ao meu interesse de pesquisar o memorialismo e os livros autobiográficos. Esse gênero de narrativa suscita inúmeras questões teóricas interessantes.
Ponte da Cadeia: A escola brasileira desperta nos que por ela passam o gosto pela leitura, provoca a curiosidade e o prazer de conhecer a sociedade e o mundo mediante o olhar e a vivência de outras pessoas, escritores?
Cláudio Leitão: Todo o sistema educacional deveria preocupar-se com a formação de leitores, a começar pela formação dos professores. Todo professor no Brasil deveria ser um leitor. Minha resposta à pergunta é não e não. Não motiva nem aproxima. Não posso estimular criança, adolescente ou jovem à leitura se eu não sou um leitor.
Ponte da Cadeia: Em meados do século 20, época em que viveu Graciliano Ramos, o número de analfabetos era proporcionalmente maior que o de hoje. Atualmente mais pessoas estão alfabetizadas, mas, segundo pesquisas, não compreendem o que lêem. Como aproximar as pessoas da leitura, numa época de império da imagem, do audiovisual?
Cláudio Leitão: Não sei responder. Sei que esse não é um problema nacional apenas. É planetário. Sei também que as pessoas que viveram em meados do século 20 e que se interessavam pela informação através do livro, tomavam contato com um grau de aprofundamento da informação que os meios de informação diversificados não têm.
Ponte da Cadeia: Uma parte de seu livro intitula-se "Exílio da Escrita". O ato de escrever está banido do cotidiano?
Cláudio Leitão: Não creio que o ato de escrever esteja banido. Muita gente trabalha cotidianamente com a escrita. O capítulo do meu livro trata de uma época, de um período individualmente datado. Trata-se de um escritor que se formou num ambiente em que não se tinha contato com a escrita. Daí a idéia de exílio. A imprensa foi uma invenção que levou séculos para ser universalizada, se esse fato já se deu. Ainda há bolsões de ágrafos [iletrados] no planeta. Para nós, brasileiros, o analfabetismo nos cerca no tempo e no espaço. São raros aqueles cujos quatro avós foram leitores.
Ponte da Cadeia: Qual é a contribuição de seu livro?
Cláudio Leitão: Se o meu livro fizer alguém ler Graciliano Ramos pela primeira vez ou reler Infância, a contribuição já se terá dado. Uma obra acadêmica tem pequenas pretensões de circulação.
Por: Pedro Belchior
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