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São João del-Rei, 06 de Setembro de 2010

Lagoa Mansa, demonstra ‘genética’ literária, recria São João del-Rei
Data: 08/04/2004
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Lagoa Mansa, demonstra ‘genética’ literária, recria São João del-Rei
08/04/ 2004
O pesquisador Nilo da Silva Lima identifica, nos contos do escritor Oranice Franco, são-joanenses e traços da memória cultural local



Se o próximo 21 de abril evoca a presença de são-joanenses na história – Tiradentes e Tancredo Neves –, a apresentação na quarta-feira anterior, 14, da dissertação de mestrado de Nilo da Silva Lima, 44 anos, na Faculdade de Letras da UFMG pretende resgatar à cena da literatura contemporânea o poeta, escritor, jornalista e radialista Oranice Franco e sua obra literária, que recria são-joanenses e aspectos da história e da memória cultural de São João del-Rei.

 

Nascido em 1919 em Lima Duarte (região de Juiz de Fora), Oranice veio com a família para São João ainda na infância, onde viveu até o final da década de 1930. Atraído pela intensa vida intelectual na capital, seguiu para Belo Horizonte e de lá para o Rio, onde em abril de 1940 ingressou na Rádio Nacional, produzindo programas, radionovelas e a “Crônica da Cidade” até 1982 quando, aposentado, regressou definitivamente a São João. A obra do escritor reúne 17 livros de literatura infantil, cinco de poesia, uma trilogia de contos e cerca de 2.300 crônicas lidas diariamente na Rádio Nacional. Nilo diz que sua pesquisa, a ser exposta à banca de examinadores às 14h do dia 14, na sala 2002 da Faculdade de Letras da UFMG, busca revelar “a rede de conexões entre realidade e ficção, o entrelaçar de história, literatura e memória cultural, a ficcionalização de moradores e locais são-joanenses na imaginária cidade Lagoa Mansa”, criada pelo autor na trilogia de contos.

 

Em Lagoa Mansa vivia João Brasil, no conto “Perus”, publicado em 1972. Republicado em 1998 com o título “Os perus de Gardel”, o personagem do conto vira Juanito. A caracterização desta personagem, incluindo os aspectos físicos, psicológicos e atividades desenvolvidas cotidianamente, levou o mestrando Nilo a identificar a conexão entre Juanito e Joanino Lobosque Neto, popularmente conhecido como Joanino, criador do Jornal do Poste. Diz: “Há indicações fortes de que Oranice Franco quis reler a história desse cidadão são-joanense, tornando-o personagem de Lagoa Mansa, onde o homem e a obra estarão sempre vivos. Não se trata apenas de um caso em que a arte imita a vida, e a ficção a história, mas da criação de um território de vizinhança tal que não seja possível distinguir com exatidão a fronteira entre um e outro, isto é, criação e realidade”.

 

O mesmo acontece no conto “Maestro Vicente”, que em edição posterior tem o título alterado para “O aluguel”. O conto narra a história do maestro Vicente, que na vida real seria Vicente Valle, maestro ligado às orquestras Ribeiro Bastos e Lira Sanjoanense, citado também no conto “Jogo do Bicho”. Locais da São João real aparecem na ficcional Lagoa Mansa como Largo da Matriz, Lira Ceciliana, Bairro da Fábrica, a locomotiva 314, igreja de São Francisco, “a Ponte da Cadeia curvada sobre o Lenheiro como a lhe ouvir as mágoas”. Segundo Nilo, o desejo de Oranice “é não só manter viva a memória de São João del-Rei, como também reterritorializar a sua Minas, com sua topografia, seu povo, sua história e sua cultura, num esforço de preservação da memória histórica, até mesmo por considerar que algo de nós mesmos se guarda secretamente no desenho urbano”, diz, citando outro autor.

 

Para descobrir isso, Nilo diz que sua pesquisa se centrou no “processo de criação da obra, na reconstituição da escritura” de Oranice. “Pesquisando seus papéis, manuscritos em cadernos, correspondências, recortes de crítica de jornais e revistas, as primeiras edições de seus livros e as alterações operadas pelo autor – certamente para aprimorar o estilo –, seus rascunhos e correções, busquei conhecer os bastidores da criação, o estado de nascimento da obra. Procurei investigar o movimento criador presente em todas estas peças aparentemente desconexas, mas que definitivamente envolvem a criação. Essa abordagem, denominada estudo genético, implicou em ler tudo o que o escritor reuniu e pôs em conexão com a sua criação”.

 

É com esse trabalho de três anos, iniciado na monografia da especialização em Letras da UFSJ em 2000 e que pretende continuar com o doutoramento, que Nilo pretende relançar o escritor – residente na avenida Oito de Dezembro até seu falecimento em 1999 – e sua obra para o reconhecimento no cenário literário mineiro e brasileiro e estudo da evolução da literatura brasileira. “Meu trabalho quer ser uma provocação para outros estudiosos, principalmente de São João del-Rei, para que considerem a obra de Oranice Franco pela contribuição que ela acrescentará não só aos estudos de literatura, mas também a outras áreas das ciências humanas, pela multiplicidade de elementos e a rede de conexão em que sempre implicam os estudos que se deslocam da obra propriamente dita para escutar, olhar e ler os bastidores da criação, a criação em estado de nascimento”.

 

Nilo, ex-seminarista por 13 anos, natural de Ponte Nova mas vivendo em São João desde 1988, onde se graduou em Letras pela então Funrei, diz "fazer questão" de agradecer ao poeta são-joanense Eric Ponty, herdeiro dos direitos autorais de Oranice Franco e curador do acervo do escritor, a abertura do acesso ao acervo durante a pesquisa.


por: Edson Paz


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