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São João del-Rei, 06 de Setembro de 2010

São-joanenses aprendizes cruzam hemisfério e Atlântico
Data: 24/07/2004
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São-joanenses aprendizes cruzam hemisfério e Atlântico
24/07/ 2004
Em busca de língua estrangeira e contato com outra cultura, experiência de vida chega através de agências de intercâmbio e escolas de idioma



“As crianças norte-americanas têm uma disciplina específica de política, mas muitos adultos acham que no Brasil só tem jegue e carroça”, diz Lucas Villela Neder Issa, 25, que passou dez meses estudando nos Estados Unidos em 1996. Augusto Veloso Leão, 19, que partiu aos 16 anos para a Suíça sem conhecer a língua alemã para lá viver 11 meses, conta que “aos 17 anos os suíços ainda não pensam em namorar. Brincavam comigo: ‘você não sabe sambar nem jogar futebol, então não é brasileiro’”.

 

No primeiro de trinta dias que passou em 2000 em Toronto, Canadá, hospedada em casa de família, Renata Araújo Carvalho, 19, não sabia qual ônibus pegar para retornar. “Saí com os amigos de São João e, mais de uma hora da manhã, não sabia que ônibus pegar para voltar. Uma mulher veio me ajudar. Fui para a casa dela, que acordou o cunhado para me levar”. Rita Hilário, 49, engenheira professora da rede pública, viveu três meses de 1999 na Inglaterra para aprender a língua. “Os ingleses lêem muito, na fila, no trem, fazem tudo lendo”. Mas recorda que no dia em que chegou à escola, “derrubaram alguma coisa. A proprietária na mesma hora insinuou que eram os brasileiros. Retruquei que estávamos bem longe do objeto que tinha caído, e que respeito é bom e a gente gosta”.

 

Em busca de aprendizado de língua estrangeira, contato com outras culturas e experiência de vida, muitos são-joanenses se aventuram em países através de agências de intercâmbio, escolas de idioma ou em cursos por conta própria. O tempo de permanência é, em média, de três semanas a um ano. Confira impressões desses viajantes aprendizes são-joanenses por terras e línguas estrangeiras.

 

Cinema “real” e família real

 

Lucas saiu de São João para Temple City, Califórnia, quando cursava o 3º ano do ensino médio, série que concluiu lá e revalidou os créditos no Brasil. “Formar nos EUA é diferente. As festas de formatura são mais chiques e com muitas tradições. Para participar você tem que ter um par”. Também chamou sua atenção “as escolas americanas terem uma disciplina só para falar de política. As crianças já crescem entendendo o assunto, o que não acontece no Brasil”. Lucas gostou de ver pessoalmente cenários – ruas, prédios, monumentos, lugares – de filmes que assistiu no Brasil. “O que você assistiu passa a ser real”.

 

A são-joanense Rita de Cássia Teixeira Hilário foi para Oxford – cidade inglesa de 300 mil habitantes – por conta própria. O objetivo, estudar inglês, não foi totalmente alcançado: “Fiquei muito próxima aos brasileiros e falava português o tempo todo”. O que chamou sua atenção lá? Rita diz ter ficado impressionada com o costume de ler dos ingleses. “Lêem muito, na fila, no trem, fazem tudo lendo. Existem muitas livrarias, de até quatro andares. Saem delas como se estivessem saindo de um supermercado, cheios de sacolas de livros, que são baratos. Comprei muitos para mim e de presente para amigos. Fiquei pensando: ‘Será que o brasileiro lê pouco ou o livro aqui é caro?’”. As estradas também chamaram sua atenção: “Acho que é sonho de todo motorista brasileiro dirigir em uma estrada inglesa”. Já que automóvel não faz bom par com o álcool, Rita também teve sua atenção despertada pela “quantidade de bebidas alcoólicas que os ingleses consomem. Andando pelas ruas você vê muita gente bêbada e sem-tetos dormindo no chão. Eles escondem que bebem tanto, mas copo de chope lá é de meio litro para cima”.

 

Rita conta que “não conseguia entender o porquê de se manter a família real. Argumentei sobre isso com uma professora inglesa e ela não gostou muito. Disse que era melhor manter uma família do que um bando de senadores. Mas sei que muitos ingleses não acham graça nenhuma em ter que manter a família real”. Um dos programas preferidos de Rita era visitar museus, “alguns com entrada franca, mas na maioria proibida a fotografia com flash. Ficamos surpresos quando chegamos no museu da Segunda Guerra Mundial e eles falaram que podíamos tirar fotos. Só depois entendemos que só era permitido fotografar porque eles ganharam a guerra e se orgulham disso”.

 

Rita planejava ficar na Inglaterra por seis meses, mas voltou para São João após três. “Não estava mais agüentando o frio. Era de congelar poças d’água na rua”. Intentando retornar à Inglaterra no verão seguinte, em julho, cometeu a “grande burrada” da sua vida – não voltar, nem sequer ao curso de inglês que freqüentava em São João.

 

Olha o trem!

 

Fugindo ao costume brasileiro de estudar em países de língua inglesa, Augusto Veloso Leão, 19, estudante de Comunicação Social na UFMG, fez intercâmbio por onze meses em Ins, cidade suíça de 1.500 habitantes. Augusto foi para a Suíça em agosto de 2001, através de uma organização não-governamental de intercâmbio – AFF. Com apenas 16 anos, concluiu o 3º ano do ensino médio em escola suíça, onde estudava de 8 da manhã às duas da tarde.

 

“Não tinha um país certo para o qual quisesse ir. O pessoal da AFF me deu uma lista para eu escolher em qual queria morar. O que mais simpatizei foi a Suíça, apesar de não saber uma palavra em alemão. Meus pais gostaram muito da idéia de eu fazer intercâmbio, mas quando contei que meu destino era a Suíça, não gostaram. Queriam um país mais conhecido, com mais gente indo estudar”. Novidades? “Quase ninguém anda de carro na Suíça. As pessoas vão para o trabalho e escola de ônibus ou trem, que são baratos, seguros e têm horários certos. O carro é só para passeios aos finais de semana. Para irmos à escola eu e ‘meus irmãos’ (filhos do casal anfitrião) gastávamos 20 minutos de trem”.

 

Apesar de considerar a vida do jovem suíço “bem parecida” com a do brasileiro, “por freqüentarem danceterias, barzinhos e cinema”, Augusto sublinha diferenças: “Eles saem de casa mais cedo, umas 5 horas da tarde, e também voltam cedo. Meia-noite já está todo mundo caçando o rumo de casa. As pessoas começam a se interessar pelo sexo oposto muito tarde. Aos 17 anos, por exemplo, eles ainda não pensam em namorar. Estranhei muito isso. Você vê poucos casais de jovens. Ficam as meninas de um lado e os meninos de outro, assim como o clube da Luluzinha e do Bolinha. Os jovens de lá são muito interessados em política. Desde cedo se filiam a partidos. Apesar das pessoas não serem obrigadas a votar, todas votam”.

 

Abaixa o som!

 

Devido “ao pouco conhecimento da língua inglesa e os filhos do casal serem muito pequenos”, Lucas não se acostumou com a primeira família anfitriã – “faltou entrosamento”. Com a segunda família “deu tudo certo. Os filhos do casal eram mais ou menos da minha idade e meu inglês estava um pouco melhor”, diz Lucas, que passava a manhã e parte da tarde na escola.

 

Em Oxford, Rita ficou hospedada na casa de um casal de idosos. “Detestei morar na casa dos outros. Não aconselho ninguém a fazer isso, a não ser que tenha até uns 25 anos. Eu fui para lá aos 43 anos e não gostei da experiência. Dentro de casa eu não praticava muito o inglês. Não conversava muito com a mulher e o homem , por ser escocês, tinha uma pronúncia diferente, o que dificultava o meu entendimento. O contrato terminou e fui morar com uma amiga em Londres, porque os cursos eram mais baratos”.

 

Augusto classifica a experiência de morar em outro país em casa de pessoas desconhecidas “uma experiência forte. A família me recebeu muito bem. Até hoje converso com eles por e-mail ou por telefone, em épocas de festa, como o dia das mães. Lá eu tinha um ‘irmão’ de 15 anos e uma ‘irmã’ de 17. Não tive problemas de relacionamento, só os normais de família, como ‘abaixa o som’. No mais o começo é um pouco ruim, mas quando você faz amigos vive uma vida normal”.

 

Feijão doce, frutas nem pensar

 

Lucas estranhou os americanos “não almoçarem. Além da comida diferente, eles lancham no trabalho ou na escola. Só na hora do jantar é que a família se reúne, comendo muitos enlatados, cereais e feijão doce. Voltei mais gordinho”. Na Inglaterra, “além da falta de almoço”, Rita diz não ter se acostumado ao hábito local de “comer ovos e bacon até no café da manhã. Eu e meus amigos brasileiros pedíamos à atendente da lanchonete para fazer um sanduíche com frango, queijo e salada. Ela deu ao sanduíche o nome de ‘brazilian sandwich’ (sanduíche brasileiro). Senti falta de frutas e legumes, pouco usados por causa do frio. Comíamos muito no Mc Donald´s. Em geral, a comida inglesa é muito ruim, só as batatas são boas. Eles não desperdiçam comida”.

 

De acordo com Augusto, “o Brasil tem mais variedade nas refeições do que a Suíça. Aqui a gente come arroz, feijão, macarrão, farofa, salada e carne, tudo junto. Lá nunca tem arroz e feijão juntos. É arroz, carne e salada, ou batata com alguma outra coisa. Minha principal dificuldade foi com as frutas. É muito difícil encontrar frutas por lá”.

 

Frieza

 

Para Rita, “reconhecer brasileiro na Inglaterra é muito fácil. Quando víamos excursões de gente falando alto e gesticulando muito já sabíamos que eram brasileiros”. Outra coisa “típica” de brasileiro, segundo Rita, “é ter mania de ‘achei, é meu’. Lá não tem isso. Ninguém pega embrulhos ou qualquer coisa na rua. Uma amiga minha foi a uma cabine telefônica e achou uma sacola. Na mesma hora pegou e levou para a gente ver. Mandamos ela colocar lá de novo, podia ser uma bomba. Quando foi colocar na cabine a dona da sacola tinha voltado lá para procurar e minha amiga entregou para ela. Na Inglaterra você pode estar com a roupa que for que ninguém te olha. Não são como os brasileiros que falam: ‘Olha a roupa dela”.

 

Lucas diz que, “como todo mundo fala, os americanos são mais frios que a gente. Outra diferença é que eles não têm empregadas domésticas e as crianças já aprendem a ter responsabilidade com a arrumação da casa desde pequenos, embora tudo seja mais fácil pela praticidade das máquinas”. Renata comenta que os canadenses também “são frios, não dão muito papo. Achei o pessoal muito ligado ao trabalho, levam o trabalho mais a sério que os brasileiros”.

 

“Respeito é bom e a gente gosta”

 

Rita conta que, na Inglaterra, quando dizia ser brasileira, não enfrentava preconceitos, exceto no dia que chegou. "Enquanto aguardávamos o café, derrubaram alguma coisa. A dona da escola na mesma hora insinuou que eram os brasileiros. Retruquei na mesma hora falando que nós estávamos bem longe do objeto que tinha caído. Falei para ela que respeito é bom e a gente gosta”.

 

Lucas diz que “a maioria dos americanos não conhece ou só ouviu falar do Brasil por causa do futebol e da Amazônia. Alguns têm uma noção de que é um país de terceiro mundo. Muitas pessoas têm preconceito e acham que no Brasil só tem jegue e carroça. Aí eu explicava que não era bem assim”. Enquanto os americanos não conhecem o Brasil, na Suíça o país é conhecido “pelo samba e futebol”, diz Augusto. “Eles faziam até piadinhas comigo: ‘Você não sabe sambar nem jogar futebol, então não é brasileiro’. Eles sempre me perguntavam se eu morava em frente à praia. Para eles, todo mundo mora na praia e fica lá o dia todo”.

 

No Canadá, Renata não sentiu preconceito. “As pessoas ficavam interessadas em saber como era a vida aqui. Já nos EUA, onde passei um final de semana, são muito preconceituosos com os brasileiros. Nós, para eles, não valemos nada”.

 

Brasileiros, distância!

 

“Na minha escola tinha muitos brasileiros. Só na minha sala, dos 12 alunos, seis eram brasileiros. Eu só falava inglês durante as aulas. Saía da escola e era só português com os amigos. Isso prejudicou muito. Estudei inglês em São João durante algum tempo, mas quando cheguei lá foi como se nunca tivesse estudado. É muito diferente ouvir um nativo falando. Na primeira semana não entendia nada. Quando andava na rua parecia que estava com um balde d’água na cabeça, não conseguia entender direito o que as pessoas falavam”, conta Rita.

 

Estar “sempre acompanhada de brasileiros” também foi “ruim” para Renata, pelo menos no tocante ao exercício da língua. “Fez com que não aperfeiçoasse meu inglês”. Consciente de que um mês é insuficiente para se aprimorar a língua, Renata diz que “se pudesse teria ficado mais”.

 

“Currículo valorizado”

 

Fazendo mestrado em Ciências da Computação na UFMG, Lucas considera a experiência de ter vivido em outro país “válida” por proporcionar “uma visão diferente das coisas, conhecer outra cultura” e pela valorização profissional. “Quando você inclui no seu currículo que já morou em outro país se torna mais valorizado, sem contar que aprendi a me virar com o inglês, que antes era bem ruim”.

 

Apesar do aproveitamento “não ter sido total, pela proximidade com brasileiros”, Rita diz que “os três meses no exterior ajudaram muito. Leio muito melhor em inglês que antes. Três meses no exterior equivalem a um ano de cursinho no Brasil. É muito válido ter essa experiência. Quem tem a oportunidade deve ir mesmo. Fiz muitos amigos com os quais correspondo até hoje, através de cartas”.

 

Para Augusto, “foi pior deixar a Suíça para voltar ao Brasil que quando deixei o Brasil. Quando fui tinha certeza que voltaria ao Brasil, mas agora, apesar de planejar voltar, não sei quando e se realmente vou ver todas aquelas pessoas de novo. Aprendi demais. Não só a língua, mas a cultura também. Me deu mais saudade de lá que daqui”.

 

Em intercâmbio pela Cultura Inglesa, filial de São João, Renata ficou um mês no Canadá, o suficiente para considerar que “morar em outro país foi uma experiência única, muito boa para conhecer outro estilo de vida. Só não volto por motivos financeiros”. O irmão de Renata, Pedro de Araújo Carvalho, 16, está passando um mês na Inglaterra, também em intercâmbio pela Cultura Inglesa.

 

Intercâmbio

 

Os requisitos para fazer intercâmbio variam de agência para agência, assim como o tempo de estadia no país. Em São João não existe agência especializada em intercâmbio, mas as escolas de língua encaminham e orientam os alunos interessados.

 

A escola de inglês Cultura Inglesa, em São João há 27 anos, realiza intercâmbios para os alunos ou intermedeia com agências especializadas. Segundo Neuza Lombardi, uma das diretoras, “cerca de 200 alunos da Cultura Inglesa em São João já fizeram intercâmbio na Inglaterra, Canadá e Estados Unidos. Pelo menos dez ficaram um ano fora, outros semanas ou meses. No começo mandamos só nossos professores, para conhecerem os lugares e ficarem treinados para acompanhar os alunos. 19 dos 20 professores já foram para o Canadá, Inglaterra ou EUA”.

 

Vinte alunos da Cultura Inglesa estão passando, agora em julho, três semanas na Inglaterra, acompanhados por quatro professores. Todos eles ficam em casas de famílias, o que, segundo Neusa, “é muito comum na Inglaterra. Lá os filhos saem de casa muito cedo, com cerca de 17, 18 anos, aí os pais ficam sozinhos, em casas enormes. Ficar em casa de família é uma experiência muito boa, por causa do contato mais intenso com as pessoas. As famílias são escolhidas de acordo com o perfil do aluno. Por exemplo, se o pai do aluno é dentista, escolhemos uma família com dentista para que ele não se sinta muito por fora”. O CCAA, outra escola de idioma em São João, não realiza intercâmbio, mas se algum aluno estiver interessado o diretor encaminha a uma agência.

 

Informações pelo site http://www.estudenoexterior.com/


por: Juliana Costa


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