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Filha de são-joanenses cruzou o Atlântico para nascer no Iraque 30/08/ 2004 Nascida na pequena al-Baghdadi, Glauce Chahinne tem dupla nacionalidade; mãe não nutre saudades da cultura árabe
Cinco anos no Iraque não levaram Fátima Regina Ramos Lopes, 46, a gostar da cultura iraquiana. "Se eu me lembro de alguma coisa boa do povo de lá? Ah... não. Sinceramente, nada". Casada há 22 anos com o hoje comerciante Ney Everaldo Caldas Lopes, 49, foi naquele pedaço do Oriente Médio, agora parcialmente destruído pelos tiros de "precisão cirúrgica" dos EUA, que sua filha Glauce Chahinne Ramos Lopes nasceu. Precisamente em 26 de junho de 1983, primeiro ano em que ela, o marido e a filha viveram no acampamento da Mendes Júnior no Iraque.
Quanto à guerra do Iraque (2003), Fátima não titubeia: "foi a maior covardia dos EUA. Bush não tinha que entrar no país". Afirma ter ficado "triste" ao saber que a guerra havia iniciado, e que evitou acompanhar os confrontos pela televisão. "Ninguém tinha direito de invadir o país". Fátima acha os iraquianos "atrasados, bobos e preguiçosos" – preguiçosos porque "os donos de armazém, por exemplo, ficam deitados até decidir se atendem a gente ou não. Se estivessem de bem com a vida, não fariam isso". Mas guarda laços de sangue com o país: mudou-se para lá no segundo mês de gravidez, e lá criou Glauce até os quatro anos.
Do Iraque, a filha, hoje estudante de medicina veterinária na Unipac de Juiz de Fora, guardou o segundo nome, mas não fala árabe nem possui hábitos iraquianos. Nem tanto: o gosto por melancia e melão, oásis do iraquiano, plantados em cada quintal das casas do acampamento da Mendes Júnior, ela herdou do planalto desértico. "Melão iraquiano é uma beleza, só comendo pra saber", diz a mãe. Glauce, que nasceu num hospital da pequena al-Baghdadi e foi registrada na Embaixada do Brasil em Bagdá – tendo, portanto, dupla nacionalidade –, conviveu com outras crianças brasileiras no colégio Pitágoras, dentro do acampamento.
Foi batizada oito meses depois em São João del-Rei, durante as férias de Ney. O batismo foi a sensação da igreja Dom Bosco naquele domingo, 26 de fevereiro de 1984: Glauce, conta a mãe, foi batizada com a água do Rio Jordão (entre Israel e Jordânia), onde, diz a Bíblia, João Batista batizou Jesus Cristo. “As mães [que batizaram seus filhos no mesmo dia] queriam a água, tadinhas! Mas a santidade ficou toda reservada para a Glauce, porque eu trouxe a água em um vidro pequeno”.
Também guarda laços com a Expressway 1, estrada de 1200 km ligando a capital Bagdá aos países Kwait, Jordânia e Síria – e que o marido Ney ajudou a construir. "Com a guerra, deve estar toda destruída", pensa Fátima (leia abaixo). Aliás, as melhores recordações da são-joanense são do alojamento, onde aprendeu a língua inglesa e conviveu com árabes, chineses, brasileiros e trabalhadores de outros países.
Saudades dos tempos de deserto sim, mas não muito. Primeiro: "os iraquianos cochichavam quando me viam fumando, deviam achar ridículo uma mulher fumando". Segundo: "os homens passam a mão no cabelo das ocidentais porque acham o penteado diferente, mas no das iraquianas eles nem tocam". Terceiro: "para eles é estranho que um casal ande de mãos dadas. Mas e os homens trocando beijo, você precisa ver". Quarto: "até fotografar é proibido. Deixei de tirar muitas fotos com medo de tomarem minha câmera. Mas não tomaram". Quinto: "e quando um estrangeiro visitava a casa dos outros e o Saddam aparecia na televisão? Diziam assim pra você: ‘nesh’. Em árabe, ‘sai’. E ficavam atentos ao que ele falava. Aparições do Saddam na TV eram quase sagradas". Por último: "os banheiros de lá são terríveis. Os sanitários parecem fossas".
Apesar de tudo, Fátima lembra – enquanto o marido Ney, concentrado, atende aos clientes que entram e saem de sua loja de ração no Tejuco – que sua vida mudou "totalmente" depois que voltou do Iraque. "Aprendi a valorizar as coisas simples da vida, amadureci. E tive a Glauce".
Que fim levou a Expressway 1?
Leia um trecho da entrevista concedida à revista Época com Sérgio Dávila, único jornalista brasileiro no Iraque durante a guerra.
ÉPOCA - Qual foi o momento mais arriscado?
Sérgio Dávila - A primeira vez que a gente saiu de Bagdá para Amã em busca dinheiro. A viagem era uma extorsão e a rota de fuga foi ficando perigosamente cara. O mesmo trajeto que pagamos 100 dólares antes da guerra já estava 3.500. Essa primeira fuga foi feita pela rodovia Expressway 1, que estava sendo bombardeada, disputada pelos dois lados. A Guarda Republicana do Saddam usava essa rodovia para fugir e se deslocar com ônibus e caminhonetes, e os americanos tinham essa informação. Então, quando eles viam os comboios, bombardeavam sem saber se eram de civis ou não. Fomos as 11 horas de viagem rezando. Passamos por um viaduto que tinha acabado de ser bombardeado e estava naquele cai, não cai, e por um ônibus de turista que pegou fogo. Tudo acontecendo e a gente passando no meio como numa corrida de obstáculos.
Clique aqui para ler a íntegra da entrevista.
por: Pedro Belchior
Foto primeira página: Fátima e um beduíno (árabe do deserto).
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