|
Atenção, senhores leitores! Destino: Iraque 27/08/ 2004 Três são-joanenses aterrissaram em Bagdá nos anos 1970-80. Um diz: "os EUA são aquela pessoa intrusa que chega sem convite e ainda quer controlar sua vida"
"Não posso chegar na sua casa sem ser convidado e impor meus desejos, posso?", pergunta ao repórter o zelador de hotel Adão Jésus Teixeira da Silva. "É mais ou menos isso que os EUA fizeram no Iraque", ele mesmo responde. Quais as recordações de três são-joanenses que nos anos 70 e 80 deixaram o Brasil para construir rodovias, ferrovias e viadutos na terra dos relatos de "As Mil e Uma Noites", ocupada desde 2003 pelos norte-americanos?
Melancia
No Iraque, a temperatura varia entre 60 graus no verão e 15 negativos no inverno, diz Adão: "deu vontade de não sair do avião ao chegar em Bagdá". Hoje morador de Dores de Campos, onde é faz-tudo de um dos dois hotéis da cidade, o são-joanense largou o clima ameno das Vertentes – pequenos montes – para viver, entre 1978 e 1984, no planalto desértico iraquiano, em meio aos acampamentos da construtora brasileira Mendes Júnior, contratada à época pelo governo iraquiano. "Mesmo com o calor, tínhamos que usar camisa de manga comprida o dia todo, porque o vento parecia queimar a pele". Isso explica porque os árabes usam camisas de manga comprida mesmo sob o sol escaldante do deserto.
Sobreviver ao calor não chegou ao insuportável, lembra o instrutor da auto-escola Sarah, Sebastião Cunha Neto, 50, que viveu no Iraque entre 1985 e 1990, também pela Mendes Júnior. "O verão do deserto é seco, não úmido como aqui, e você não sua. Não foi tão difícil adaptar-se", pondera. Adão lembra que a empresa, além de um breve curso sobre os costumes e o idioma iraquiano, preparava os operários para enfrentar o calor de lá. "Ficávamos alguns minutos dentro de uma sauna, aqui no Brasil, para ter noção do verão iraquiano".
Mesmo com o clima seco, era preciso matar a sede, "mas e aquela água com gosto de terra do Iraque?", ironiza o operário aposentado Osvaldo Turíbio do Nascimento, 57, dez meses entre 1980 e 81 vividos no Iraque. A solução era comer... melancia o dia todo, a noite toda. "Água potável a gente tinha que comprar. E saía caro. O que sobrava, tínhamos que jogar novamente num balde para que outros bebessem. Isso é hábito no Iraque".
Cigarros da Síria e a mangueirinha do banheiro
Osvaldo confirma relato do jornalista Sérgio Dávila, único brasileiro a cobrir a Guerra do Iraque (2003), que escreveu: "aqui, fuma-se como se não houvesse amanhã – e talvez não haja mesmo". Segundo Osvaldo, "os iraquianos – homens fumam, mulheres não – te convidam a fumar com eles, e isso é quase uma obrigação. Mas o cigarro iraquiano é uma porcaria". Tanto que os brasileiros compravam maços na fronteira com a Síria, perto do acampamento da Mendes Júnior, diz.
Melhor do que a insalubre água e a melancia, só a "pinga" iraquiana, feita de anis, erva originária do Egito. "A bicha é forte", diz Osvaldo. Sobre o cotidiano iraquiano, ele observa. "Lá não existe papel". Que papel? "Papel... higiênico. Todo banheiro tem um buraco e uma caixa com mangueirinha ao lado. Muito estranho".
Mulheres: lindas, mas parecem urubus
As mulheres iraquianas são lindas, pena que não podíamos vê-las, ressentem-se os entrevistados. "Se um amigo iraquiano passasse de carro com uma de suas esposas e te convidasse, a mulher era expulsa para o banco de trás e o amigo fica ao lado do motorista", diz Sebastião. Adão resume: "andam todas com o corpo coberto de preto. São objetos de segunda categoria no Iraque, vestem-se como urubus. Se você olhar para elas nas ruas, como olhamos as mulheres no Brasil, ganha logo um safanão dos homens".
Segundo o jornalista Sérgio Dávila, os iraquianos sempre possuíram boas relações com brasileiros: gostam do futebol, das músicas, do automóvel Passat (que chamam de "Brazíli") e do Pelé. "Eles sabiam de cor a escalação da seleção brasileira da copa de 86", confirma Sebastião. Mas jogar futebol com iraquianos – como freqüentemente acontecia nos acampamentos – era "complicado", diz Adão. Lá, homens se beijam e andam de mãos dadas pelas ruas. Se são desconhecidos, saúdam-se com três beijos no rosto. Se amigos, quatro, um na boca. "Na boca, na boca mesmo!", enfatiza Adão. Bastava um gol para a saudação com beijo na boca – "tudo bem, eu entendo, mas comigo não".
Sair da São João del-Rei de catolicismo tricentenário para morar no Iraque muçulmano poderia proporcionar estranhamento. Para Osvaldo, que aterrissou no país em novembro, mês de Ramadã, a "quaresma deles", realmente proporcionou: "eles só se alimentavam com o pôr-do-sol, mas comiam à noite o que deixaram de comer o dia todo". Apesar da observação, Osvaldo visitou mesquitas, e a religião fundada pelo profeta Muhammad no ano 662 teve o "respeito" dos são-joanenses, lembram Sebastião e Adão.
Deus no céu, Saddam na terra
Na década de 80, o ditador Saddam Hussein, que tomou o poder com golpe de estado em 1979, era um deus no Iraque. Sebastião: "todas as casas que visitei tinham um quadro dele. Os homens queriam se parecer com ele, tinham cabelo curto e bigode". No único canal de tv iraquiano, "era 90% Saddam e o restante de novelas mexicanas", lembra Adão.
Os são-joanenses não presenciaram a Guerra Irã-Iraque (1980-1988), que causou um milhão de mortos, porque o acampamento da construtora ficava sempre além da distância de 150 quilômetros da capital Bagdá, onde aconteciam os confrontos. Durante a noite, silêncio. "Com o pôr-do-sol, ficávamos fechados nas cabines do acampamento. Para quem precisasse sair de carro, o farol era pintado de preto, emitindo iluminação mínima", diz Adão.
Apesar de não concordarem com o regime de Saddam, os três desaprovam a Guerra do Iraque (2003) e a posterior ocupação norte-americana. "Os EUA só invadiram o país porque teriam retorno. Por que não fazem guerra contra as ditaduras da África? Lá não tem petróleo. Além disso, das empresas contratadas para reconstruir o Iraque, a maioria são norte-americanas", critica Sebastião, acrescentando que aprendeu a ser "anti-americano depois de morar no Iraque". Adão diz que os EUA são "aquela pessoa intrusa que vem sem convite e quer tomar conta da sua vida".
O que fica?
Sebastião guarda certa nostalgia do tempo em que passou no Iraque. Lembra que a Mendes Júnior empregou também iraquianos, chineses, tunisianos e outras nacionalidades, e que o acampamento – verdadeira "cidadezinha" com escolas, clubes e cinema – parecia uma torre de Babel: "misturávamos árabe, inglês e português, até que com o tempo aprendi a falar árabe com mais naturalidade". Mantém um amigo iraquiano, com quem conversa por telefone "quase todo final de ano".
O país que até antes do embargo econômico imposto pela Organização das Nações Unidas assistia ao desenvolvimento propulsionado pelo Estado, modificou a forma de ver o mundo dos três são-joanenses. "Antes de morar no Iraque, desconfiava das pessoas que não conhecia. Hoje, todos para mim são bons, a não ser que no convívio posterior provem o contrário", afirma o instrutor de auto-escola Sebastião. "O Iraque é o lugar onde o filho chora e a mãe não vê. Serviu como experiência de vida, mas financeiramente não ganhei nada porque gastava tudo em viagens pela Europa", diz o zelador Adão. "Aprendi a dar mais valor à minha terra", resume o aposentado Osvaldo.
por: Pedro Belchior |