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“Tem muita negra são-joanense mais bonita do que as famosas” 13/09/ 2004 Pelo menos duas nativas almejam o título, que inscreve candidatas até 3 de outubro. "O que é beleza negra?", respondem Vicentina, Jauará e Luiz Ezequiel
Duas são-joanenses almejam ser ‘A mais bela negra do Brasil’. Títulos locais e regionais conquistados nos últimos dois anos – Miss São João, Miss Negra, Miss Vertentes, Rainha do Carnaval e indicada à pré-seleção a Miss Minas Gerais, em novembro – motivam a estudante secundarista Simone Mara Silva, 17. Sem "nunca" ter se importado por concursos de beleza, a cabeleireira Sara Letícia de Souza, 20, foi atraída pelo "exaltar somente a beleza negra".
O concurso, promovido pelo programa Domingo da Gente (TV Record) e pela revista Raça, despertou Simone através de folhetos informativos com ficha de inscrição distribuídos nas bancas de jornal da cidade. Sara se interessou após ser informada pela coordenadora do grupo de afro-descendentes Raízes da Terra, Vicentina Neves Teixeira. As inscrições podem ser feitas até 3 de outubro, através de fichas de inscrição disponíveis em bancas de jornais ou na internet – www.rederecord.com.br/hotsites/belanegra. Apesar do regulamento requerer que as candidatas tenham entre 18 e 27 anos, Simone, que alcança a maioridade em dezembro, tem esperanças: "às vezes eles aceitam. Não custa nada tentar".
Beleza negra, o que é?
Vicentina, que há anos busca estimular o interesse entre jovens negros pelas suas raízes, diz que "o concurso será muito válido se os jurados levarem em conta a verdadeira beleza negra. Quanto mais escura for a pele, mais grossa a sobrancelha, mais carnudos os lábios e mais achatado o nariz, mais bonita é a mulher". Diz "adorar" a maneira "que as negras estão aparecendo na televisão: com os cabelos carrapichos, característicos da raça".
O professor de sociologia da UFSJ, Manuel Jauará, africano de Guiné-Bissau, acredita que "o mercado consumidor está por trás desse concurso. Quando as negras virem mulheres da mesma raça na televisão vão querer ficar produzidas também, vestir-se melhor e comprarem produtos de beleza. O concurso vai ter um efeito colateral muito bom que os organizadores não devem ter pensado ainda. Muitas meninas vão assistir ao concurso pela televisão, ouvir histórias de vida das participantes e se identificar. Isso vai aumentar a auto-estima e fazer com que elas lutem para conseguir um espaço".
Segundo Jauará, "quando a negra começou a aceitar a beleza da raça e querer estar mais produzida, o mercado de cosméticos se viu obrigado a desenvolver produtos de beleza especiais para a raça negra". Jaurá sublinha que "até pouco tempo a negra tinha vergonha do seu cabelo. Tentava alisar para ficar como o das mulheres brancas. Quando começou a aceitar seu próprio cabelo, fazer penteados com trancinhas como os das africanas, as brancas viram como o penteado das negras era bonito e passaram a imitar". Essa "aceitação", de acordo com Jauará, fez "as coisas se inverterem: antes as negras imitavam o cabelo das brancas, agora são as brancas que se penteiam como as negras".
Nas reuniões do grupo Raízes da Terra, Vicentina também nota o "interesse" das mulheres brancas no modo de vestir e pentear das negras: "muitas brancas, até loiras, participam dos encontros e vão com roupas estampadas e cabelo rastafari". Em visitas do grupo Raízes da Terra às escolas de São João, Vicentina diz encontrar "meninas negras lindas, mas que têm vergonha das raízes e não assumem a beleza própria da raça. Elas não se sentem belas e acham que as amigas brancas são superiores. Isso não pode acontecer. Converso com elas para tentar levantar a auto-estima. Tem muita negra escondida porque não se acha bonita e não se mostra".
Apesar das indústrias de cosméticos terem criado inúmeros produtos para negras, o presidente do Movimento São-Joanense de Cultura Afro-Brasileira, professor Luiz Ezequiel da Silva, lembra que "pouquíssimas negras têm condições de comprar esses produtos, que são caríssimos. Tenho filhas e vejo a luta delas para realçar a beleza sem gastar muito. O negro tem poder aquisitivo menor. A explicação para isso vem da história. Quando o negro foi libertado não deram condições para que ele continuasse vivendo. Ele só sabia trabalhar na terra, mas não possuía propriedades. Se plantasse em terra dos outros seria contra a lei. O negro não consegue arrumar emprego. Olha o comércio de São João. Quantos negros têm? Pouquíssimos. Nos bancos também não há quase nenhum negro". O professor e pesquisador Jauará diz que "quando os negros conseguem emprego são menos remunerados que os brancos. Não ganham mais que cinco salários mínimos".
O fato de a mulher negra ter "menor poder aquisitivo" que a branca" "não a torna menos bonita", assegura Vicentina. "A beleza natural da mulher negra é o que chama a atenção, não precisa ficar alisando o cabelo ou indo a salões de beleza todos os dias", diz. Jauará garante que "tem muita negra são-joanense mais bonita do que as famosas. A única coisa que as diferencia é a produção. Na televisão estão sempre maquiadas. As que ganharam espaço na televisão deram sorte. A ‘globeleza’ Valéria Valenssa só conseguiu o espaço que tem por ter casado com Hans Donner [programador visual da Rede Globo]. Isso foi bom porque ela abriu portas para outras negras na televisão", diz Jauará.
"Sempre tive ótima auto-estima"
Sara e Simone dizem nunca terem se sentido inferiores a outras pessoas pelo fato de serem negras. "Sempre tive ótima auto-estima", diz Sara. Simone, que não apresenta traços marcantes da raça negra – a família do pai é negra e a da mãe é branca –, considera sua genética negra. "As negras são diferentes. Nunca vi negra magérrima. Mesmo se for magra, tem bumbum grande".
O fato de ser negra, segundo Simone, ajuda a conseguir patrocínios para os concursos que participa. "Os patrocinadores acham a beleza negra diferente e sempre me apóiam muito", diz. O fato de só não ter vencido um concurso que participou – o Miss Férias, em Varginha – não faz com que Simone se sinta superior às outras concorrentes: "Não sou mais bonita que ninguém. Todas são bonitas, mas minha beleza é diferente. As pessoas não estavam acostumadas a ver negras em concursos de beleza".
Sara, que trabalha como cabeleireira, acredita que "a maioria das negras não consegue emprego e fica sem condições financeiras para cuidar da beleza". Para Simone, o fato de pertencer à raça negra não é empecilho para comprar cosméticos e freqüentar salões de beleza: "muitas brancas também não tem condições de gastar dinheiro em cuidados com a beleza. Isso depende das condições financeiras de cada pessoa, não da raça a qual pertence".
por: Juliana Costa
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