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São João del-Rei, 06 de Setembro de 2010

“Cheguei pensando que São João era igual a uma metrópole”
Data: 19/02/2004
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“Cheguei pensando que São João era igual a uma metrópole”
19/02/ 2004
Os dez estudantes africanos na UFSJ – mais dois chegam em abril – cruzaram o Atlântico e se depararam com estranhamentos de língua e costumes



Com dez estudantes africanos e mais dois que chegam no início do primeiro semestre letivo, a UFSJ, “ao receber alunos de outros países e integrar culturas diferentes, torna-se mais universidade, que quer dizer encontro de todos”, diz o pró-reitor de Graduação e Pós-Graduação, Marco Túlio Raposo. Os oito estudantes vindos de Guiné-Bissau (no litoral oeste), três de Cabo Verde (conjunto de dez ilhas no Atlântico) e um de Ghana (litoral norte) vieram se incorporando à então Funrei, agora UFSJ, desde 1999, com a implantação do Programa de Estudantes – Convênio de Graduação (PEC-G).

 

Para chegar à UFSJ, eles fizeram prova para avaliar o conhecimento da língua portuguesa e tiveram currículo analisado pelo Ministério da Educação (MEC), Ministério de Relações Exteriores e pelo pró-reitor de Graduação e Pós-Graduação da UFSJ. Raquel Margarida Nascimento Lopes, 25, de Praia, capital de Cabo Verde, há quatro anos em São João del-Rei e cursando o sétimo período de Psicologia, relata diferenças percebidas entre o Brasil e o lado de lá do Atlântico. “Em Cabo Verde as notas escolares variam de zero a 20. Para conseguir ir para uma universidade de outro país você precisa ter uma média de notas no seu histórico escolar superior a 15 pontos. Lá os professores são muito exigentes, e os feriados poucos. Nunca tinha feito prova em que se podia consultar livros, o que conheci aqui”.

 

Mas as diferenças vão muito além da sala de aula. Com apenas uma rede local de televisão em seu país, Raquel diz que “em Cabo Verde são transmitidas várias novelas brasileiras – ‘Escrava Isaura’, ‘O bem amado’, ‘Saçaricando’ –, o que influencia no falar local das pessoas, que ficam falando português do Brasil. Quando vim para cá mudei meu sotaque para facilitar a comunicação. Eu moro com quatro garotas brasileiras, e no começo não entendia as gírias faladas aqui. Eu escutava o que as pessoas diziam e levava ao pé da letra, porque não sabia que expressões podiam ter outro sentido”.

 

Raquel conta que quando chegou na cidade “assustei-me com o modo liberal das pessoas. No primeiro dia de aula todos já eram amigos íntimos. Tive que controlar isso e mostrar como era meu estilo. Tenho que conhecer bem as pessoas para dizer que sou amiga delas, e parece que no Brasil todo mundo fica amigo de todo mundo muito rápido. Quando pego ônibus, as pessoas vêm, conversam comigo e se falo que faço Psicologia, começam a falar sua vida inteira. O almoço aqui é muito cedo, as pessoas comem a partir de 11h30, enquanto lá só depois das duas da tarde. Aqui não descansam depois dessa refeição, começam logo a trabalhar, estudar. Isso me chamou muito a atenção”.

 

Uma cabo-verdiana desacostumada ao verde

 

A diferença geográfica também chamou a atenção de Raquel. “Minha ilha é muito plana e aqui é cercado por serras. Me sinto presa e mais longe de casa, com tanta montanha. No meu país faltam chuvas, e por isso tem pouco verde. Aqui há muita chuva e verde. Lá comemos muito sopa, o que é raro aqui. Mas as igrejas, o centro histórico, os muros de pedra e até as estradas são muito parecidos”.

 

Carlos Irino Justado de Barros, 25, desembarcou em 2000 em São João del-Rei vindo de Bissau, capital da Guiné-Bissau, para cursar Administração. “Lá tem uma universidade pública e uma particular, com cursos centrados na área de Ciências Humanas”. Só faltando concluir monografia sobre estágio que fez na Associação Comercial e Industrial de São João del-Rei para obter o diploma, Carlos não quer voltar a seu país sem antes fazer pós-graduação na sua área. “Cheguei pensando que São João era igual a uma metrópole, cheia de edifícios. Mas andando e descobrindo que a cidade é histórica, gostei mais ainda. No início as pessoas não entendiam o que eu falava. Quando entregava trabalhos para os professores, eles não entendiam muito bem o que eu escrevia. Ter que mudar a escrita não foi muito bom, pois perdi o português tradicional de Portugal, mas acabei me adaptando”. Carlos ressalta que um hábito alimentar local "que destoa do meu país é o feijão. Lá não se come feijão como no Brasil, come-se uma vez por semana, mas na forma de feijoada”. “Fissurado” por futebol, diz que já esteve no Maracanã e no Parque Antártica, torce pela Ponte Preta – “quando cheguei vi um jogo dela com o Guarani, a Ponte ganhou o jogo e um torcedor” – e, na Copa do Mundo, torço pelas seleções da África.

 

Nouette Maria Biaguê Mendes, chegada de Guiné-Bissau em 2002 para cursar Psicologia, faz coro com Carlos: “adoro o futebol, torço para o Cruzeiro e para o Santos, na Copa para Portugal até quando ele está, depois eu torço para o Brasil”. No “país do futebol”, Raquel não se apaixonou pelo esporte, “comum em Cabo Verde. Durante a Copa do Mundo os cabo-verdianos torcem para o Brasil, são fascinados com o futebol daqui. Mas esse esporte, apesar de fazer a festa de todo mundo, não me interessa”.

 

Nouette diz que como Guiné-Bissau não tem curso superior de Psicologia, pensou em fazer em Portugal, “mas como a média da nota exigida para ir para lá era muito alta, vim para o Brasil”. Extrovertida, de fala rápida e de sotaque de difícil entendimento, diz que “a música daqui e a de Guiné-Bissau são muito parecidas, com um ritmo e ginga muito fortes, apesar de aqui as pessoas se vestirem com menos roupas. O que me assustou um pouco é que aqui se vê muitos jovens bebendo, muitos meninos e meninas de 15 anos que bebem”. Conta que “em Guiné Bissau as pessoas estudam quatro anos na escola primária, depois fazem um ciclo complementar de dois anos e estudam mais seis anos em um grau chamado Liceu, que equivale ao segundo grau”.

 

Amor transatlântico

 

Nouette e Raquel alimentam suas paixões à distância pela internet. “Meu namorado mora em Bissau e nós usamos a tecnologia para estarmos próximos. Sou fiel e nunca fiquei com nenhum brasileiro”, diz Nouette. “Meu namorado mora em Praia, e conversamos por telefone, e-mail e carta. Nunca fiquei com ninguém do Brasil. Ano passado ele esteve aqui e ficou seis meses, foi bom para aprendermos a conviver”, faz coro Raquel. Carlos conta que em Guiné-Bissau “as pessoas não tem o hábito de ficarem, elas namoram. Quando cheguei em São João, era carnaval, e uma menina chegou perto e falou que gostava de mim. Nós ficamos, e no primeiro dia pensei que estávamos namorando, mas no terceiro dia de carnaval fui beijá-la e ela me disse que tinha namorado, estava comigo apenas para passar o carnaval. Fiquei muito decepcionado com a história”.

 

Raquel diz que “o MEC de Cabo Verde paga os estudantes que estudam fora. No ano em que vim para cá, em 2000, o MEC enviava 400 dólares por mês para a embaixada do meu país, mas depois de alguns meses com alta dessa moeda, o Governo fixou o salário de R$ 500,00 por estudante”. Já Carlos informa que “o governo do meu país não envia dinheiro, e quem me sustenta há quatro anos aqui são meus pais”. Situação idêntica é a da compatriota de Carlos, Nouette. “Minha mãe que envia dinheiro para mim, vindo uma quantia que dá para viver, mas cada mês vem um valor, dependendo da situação econômica dela".

 

Qual o rumo de Raquel e Nouette, concluídos seus cursos? Raquel diz que volta para Cabo Verde e pensa “fazer mestrado em Portugal”. Apesar de Nouette se dizer “brasileira”, “quando me formar vou pegar o avião e voltar para meu país”. Quanto à expectativa de emprego na África, os três, apesar de “confiantes”, dizem que não tem nada garantido. “Da mesma forma que nós, há muitos universitários de nossos países estudando fora. A concorrência será bastante grande”.

 

Pelo “Programa de Estudantes – Convênio de Graduação, os alunos que vêm de outros países não podem trabalhar e têm que fazer apenas cursos integrais. Os universitários do programa só são diplomados em seu país natal, o que visa garantir a volta desses alunos”, diz o pró-reitor Marco Túlio Raposo.

 

A política desses países

 

Segundo o Índice de Desenvolvimento Humano, pesquisa feita pelas Organizações Unidas que mede as condições sociais de cada país, Cabo Verde ocupa a 103ª colocação e Guiné-Bissau a 166ª. O último é Serra Leoa, também na África, dentre 175 países. Na visão política de Carlos, a Guiné-Bissau “em 1974 estava acabando a guerra pela independência, e quando o conflito terminou, entrou no poder um governo déspota com um único partido. A partir de 1992 foi estabelecida uma possível democracia e em 1994 as pessoas puderam votar pela primeira vez. Mas em 1998 meu país entrou em crise com a guerra civil estourada lá, e não vejo a possibilidade da crise que ela gerou acabar”.

 

Em Cabo Verde a trajetória política não foi muito diferente, segundo Raquel: “até 1985 havia apenas o Partido Africano de Independência de Cabo Verde (PAICV), que era bastante fechado e não permitia que as pessoas tivessem liberdade de expressar-se, era uma espécie de ditadura do Brasil. Depois daquele ano houve uma abertura política, com partidos alternando-se no poder. Agora o PAICV voltou para o poder executivo, mas o sistema é totalmente aberto, e são as pessoas que elegem seus governantes”.


por: Douglas Caputo

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