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“Olha aí meu bem, prudência e dinheiro no bolso, canja de galinha não faz mal a ninguém”, verso inicial de “Engenho de Dentro”, do redescoberto Jorge Benjor, se aplica perfeitamente à última reunião da Associação das Escolas de Samba, Blocos e Ranchos de São João del-Rei – Aesbra –, realizada na noite de sexta-feira 9.
Chegando debaixo de chuva e frio no verão, os 12 diretores das escolas e blocos que desfilarão na presidencial avenida Tancredo Neves, dias 21 a 24 de fevereiro, sentaram-se com atraso de quase uma hora em torno da grande mesa do salão da Liga Municipal de Desportos. Não em torno de pratos de canja, mas da distribuição da primeira parcela da verba governamental para o Carnaval oficial, atrasada desde 25 de novembro, segundo os dirigentes.
A repartição da primeira metade dos R$ 120 mil prometidos pelo prefeito Nivaldo de Andrade – R$ 24 mil a mais que em 2003, R$ 30 mil a menos do reivindicado pela Aesbra – não foi canja. Proposta de rateio apresentada pela diretoria foi substituída consensualmente por outra, depois de longa negociação que mais parecia de contabilistas do que de sambistas – “isso aqui tá igual ao Banco Central, 0,8% pra lá, 0,8% pra cá” –, comentou um senhor nos bancos do público assistente.
Finda a rodada de propostas e contrapropostas, as seis escolas do 1º Grupo presentes nos desfiles anteriores recebem segunda-feira 12, em conta bancária ou diretamente das mãos do presidente Geraldo Trindade das Dores, o “Geraldinho Sapateiro”, cheque de R$ 7.440,00. Arco-íris e Girassol, ausentes do desfile de 2003, embolsam, pelo estatuto da Aesbra, 25% a menos, R$ 5.580,00. Como as escolas do 2º Grupo têm direito à metade das do 1º, a Rubro-negro, única do grupo a desfilar, leva R$ 3.720,00. Os blocos Acordar é Viver, Alvorada e Caveiras recebem, respectivamente, R$ 1.984,00, R$ 992, 00 e R$ 744,00. As escolas Bem-me-quer e União não desfilam.
A segunda parcela, de igual valor, “espero que saia no máximo dia 25”, anunciou Geraldinho. Luiz Carlos Teixeira, “Cacá”, do Grêmio Irmãos Metralha, pediu para ver o recibo do depósito do cheque da Prefeitura na conta da Aesbra. “Alguma desconfiança?”, perguntaram diretores da entidade. “Um diretor da escola me pediu para que eu visse”. Seguiram-se comentários constrangidos, e o recibo bancário passou de mão em mão.
Quilo e inversão de trajeto
A “preocupação com a arquibancada vazia – queremos arquibancada cheia” levou a diretoria da Aesbra a apresentar proposta de substituição da venda do ingresso pela troca de um quilo de alimento. O total, que poderia chegar a oito toneladas, seria distribuído a “creches, sopões e entidades assistenciais locais”. Os ingressos, segundo a proposta, poderiam ser loteados entre as escolas, que os distribuiriam entre torcedores organizadores, em troca de um quilo de alimento. Como a proposta não empolgou, o assunto foi adiado.
A mudança do percurso do desfile, partindo do interditado “Posto Zé Menino” e terminando defronte à Casa Sade e Ponte da Cadeia, foi interditada, não por votação, mas por levantar animosidade. A inversão do tradicional percurso evitaria, segundo a diretoria da Aesbra, ruelas e esquinas estreitas do centro histórico, principalmente a do “Bico de Lacre”, de ângulo pronunciado que dificulta a passagem de carros alegóricos mais ousados.
Cacá, do Irmãos Metralha, disparou: “Esse trajeto é histórico, nunca impediu a passagem de nada. Como trocar uma visão panorâmica da escola descendo de frente por outra panorâmica afastando-se de costas, o que faz perder o brilho?” . A diretoria da Aesbra disse que tinha um leiaute (esboço físico) do trajeto, mas deixou por isso mesmo, pelo menos por ora.
Se a reunião teve momentos de ligeira tensão, como a provocada por "Paulinho", do Irmãos Metralha, que metralhou um desafiador “Me tira daqui!” ao ser convidado a passar do espaço reservado aos diretores para os bancos do público assistente, os debates foram contrabalançados pela prudência.
Às 21h, ao término da reunião, um diretor de escola, barbeiro no Largo do Carmo, conclamou: “Vamos parar de ficar brigando. Em vez de harmonia, isso aqui parece cachorro com gato. Às vezes a gente é tratado como mercenário, parece que ficamos comendo dinheiro. Temos que acabar com isso de uma vez, não estamos aqui para fazer papel de palhaço”. A divisão interna na Aesbra fica obscurecida para o espectador de primeira visita.
Após a Semana Santa, “no final de abril, vamos todos começar a preparar o Carnaval de 2005”, disse o presidente Geraldinho. Um diretor de escola levantou os braços: “Mas com o Nivaldo (prefeito) não dá!”. Reunião encerrada, a próxima será dedicada à distribuição da segunda parcela da verba oficial, e poderão haver outras para decisão sobre o regulamento do desfile e corpo de jurados.
A instalação de arquibancadas, banheiros, iluminação, sonorização e ornamentação depende da Comissão de Licitação da Prefeitura, que tem verba de R$ 40 mil para a infraestrutura. O valor, visto como baixo, é motivo de preocupação entre diretores e componentes da Aesbra.
Pré-carnaval
De acordo com Waldir Raimundo das Chagas, “Caju”, o calendário de desfiles das bandas “oficiais” que antecedem o carnaval são-joanense é:
Sábado, 14: Bandalheira, com saída às 15h do Kibon. Segunda-feira, 16: Deixa o Mundo Girar, com saída às 21h do Bonfim. Terça-feira, 17: Se Mamãe Deixar, com saída às 21h do Largo do Rosário. Quarta-feira, 18: Lesma Lerda, com saída às 22h da av. Oito de Dezembro. Quinta-feira, 19: Domésticas, com saída às 21h do Teatro Municipal. Sexta-feira, 20: Pão Molhado, com saída às 22h do Tejuco. Sábado, 21: Alvorada , com saída às 04h do Bico de Lacre. Há outras bandas: Cambalhota, Jegue Elétrico, Piranhas, Vamos a la Playa, ...
por: Edson Paz
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